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(Pa)lavras novas

                    Como pedras preciosas expostas às intempéries, as palavras têm o seu sentido ofuscado se repetidas fora de contexto e à exaustão. Logo novas expressões são criadas para resgatar o efeito original daquelas desgastadas, num ciclo sem fim. Na escrivaninha do poeta Walter Branco, encontrei um poema – “Ich liebe dich”  que corrobora a hipótese: “Eu te amo” com um ou vários “o”s superficializou-se tanto, que o poeta buscou na língua alemã um análogo para expressar a força do sentimento que sua escrita exigia.

                   A julgar pelas aparências, vivemos num mundo prenhe de amor : ama-se e adora-se de um tudo. Adorei seu texto no recanto. Amei te ver de novo. Adoro o jeito como ele sorri. Seu cachorrinho é um amor. Com tal superexposição, há que ser criativo para expressar o sentimento sublime de encarar o outro de maneira única ou a idolatria, veneração máxima. Se a moda do alemão pega, daqui a pouco nos declararemos ao amado em sânscrito ou tupi guarani. Outras palavras têm o mesmo vaticínio: “saudade” ( “saudade do meu hamster, que deixei de manhã e verei no fim do dia), “ódio” ( adolescentes, em ataque de fúria, têm “ódio” do cabelo). De tanto ser repetida, o sentido de Ética banalizou. Defensores da “verdade” e da “justiça”, esquecemos de que ambas têm muitos lados. A “paz” social é garantida com medidas coercivas e violentas. “Cidadania” é moeda de governo populista. “Caridade” virou assistencialismo e ajudar o outro a buscar a dignidade como pessoa agora é "solidariedade". A substituição é iminente, pois começa a designar o modo das classes dominantes safarem-se de altos impostos: o Bem para preservar os bens...

                     Milhares de beijos e abraços enviados no mundo virtual me fazem imaginar como todas essas pessoas reagiriam no encontro face a face. Há expressões quase absurdas se tomadas no sentido literal : beijo na alma, beijo no coração, abraços eternos. Em outras situações, abusamos do inglês, e aí são os anglicismos que perdem a relevância. Por que usar “approach” em lugar de abordagem ou “insight” em lugar de intuição? Por que não oferecer um café reforçado no domingo em vez do “brunch”? E o brainstorm poderia ser substituído por tempestade de idéias ou, em bom mineirês “toró de parpites”? Benchmarking é adaptar a prática do outro à nossa própria realidade. Para que vender “qualidade” se esta deve ser atributo básico de qualquer produto? “Excelência” então é terrível: vazia por natureza, significa ir além – o ruim é o excelente do péssimo...

                       Falamos e abusamos de palavrões, sem o perceber. Como papagaios, repetimos "caramba", "caraca" ( suavização de “carajo”, em espanhol); “putz”, , “pô”, “pôxa” - abrandamentos de "pucha", a mulher de vida fácil. “Caspita”, suaviza “cazzo”, traduzida aqui como pênis, para não enrubedecer pudicas leitoras... Palavrão é pau pra toda obra!

                      Palavras precisam ser reservadas para ocasiões especiais. Não são modinha descartável; são confecção exclusiva, lavadas a seco para não deformarem. Modinha é sazonal – Abuse e use C&A.  Como diamantes, palavras são eternas: há que usá-las com parcimônia, para que não percam o fulgor, a significância. Caso contrário, as (pa) lavras inevitavelmente se esgotarão.
Maria Paula Alvim
Enviado por Maria Paula Alvim em 19/11/2007
Reeditado em 20/11/2007
Código do texto: T743542

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Sobre a autora
Maria Paula Alvim
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Maria Paula Alvim