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O abandono do início

     Depois de cabriolar saiu-se com essa: educação é lenda. Um mito religioso a mais no grande cenário. As reformas educacionais redundaram em perfeito fracasso. Falava como se necessitasse de auto-propaganda. O primado consiste em formar oportunidade de salário. Na prática estudamos para garantir um futuro estável. Para o montante. O montante não chega. Nunca chega. Falta cada vez mais. Tirano pela ausência. O conhecimento na cabeça dos alunos está antes impregnado da sobrevivência pelo montante. Depois virá. O desejo de aprendizado por si só é algo real, amplo e natural. Fez uma careta alegre visivelmente embriagado. A categoria prestigiada (falava a se desculpar, sempre se desculpando) é também a mais infeliz; pobre e desprestigiada categoria dos professores.  Falava como se jamais juntasse o símbolo a pontuação sobre o sagrado ofício. Dos mais derramados em conceitos da moral, contudo despreparada para lutar por melhores condições de vida da humanidade.
      Esteve bebendo durante a manhã de sol antes da praia. Nesse estado era como se não existisse a verdade plena em seu estilo de Janinho.  Falava com tímido carisma e até zombou.  O professor concorre com o líder espiritual, zombou. Concorre com o curandeiro, riu. O Pagé perdeu para os meios de comunicação a sua unicidade. Meios que apostaram na idéia da informação como valiosa essência de mercado. Hoje dizem que o homem bem informado está no alto da altivez ou qualquer coisa assim em termos de conhecimento. É pura bobagem! Nem sempre suas reflexões saíam do fluxo sério para o humor suave. Dizia viver como um “sisudo entre doidos” na frase que vinha acompanhada de elegante gesto. O gesto imperativo da oratória: Como diria o Miranda! O Miranda.  Misto de mono e leopardo. Desatou então a conhecida gargalhada. Legível, saudável e boa.
     Na verdade acabamos nos tornando uma montanha de segmentos e sem sombra de duvida um homem segmentado deve se dominar dentro da própria condição notável de cubista.  Procurou realçar os traços do rosto com a xícara de café em meio às sombras da madrugada. Os cabelos lhe escorriam na testa reluzente. Até o café bebia como se povoasse um bar. Aliás, complementou, o resultado é a especialização. A especialização consiste em levar o rim ao socorro e o restante não. Nem sempre a verdade escolhe o caminho da simplicidade. Talvez seja importante levar apenas o rim na hora certa e no lugar certo, arrematou.  Por outro lado esse é o efeito lógico, impiedoso. Blasfemou: estamos perdidos na ignorância e no misticismo! Emendou com excelência: estamos calidamente perdidos na ignorância.  É por isso que a educação jamais obteve recursos para se manter como importância real ao largo da história. Pura bobagem. Bebedeira. Besteirada de cidadão opinativo confundido com tom democrata.  O que temos a fazer é concorrer o filho para o emprego bem arrumado, arrumado financeiramente perceberá que passou a vida entre excluídos. Imagine um ponto de limitação no ser diplomado ou bacharel empalmador, considere-os perfeitamente conformados com a sociedade da persuasão e do magismo diante dos cálculos acelerados. Acendeu um cigarro e começou a fumar sem a idéia do enfisema no ato hipotético todo supositício. A sociedade persuasiva ocupa a alma humana a mais de cinco séculos para assistir a facilidade.  Ela tem um próprio processo de... Baforou o cigarro novamente, mas sem terminar a frase.  Retornou ao tema sobre a sociedade persuasiva ocupando 97% da alma humana declarando ao silêncio dos demais: escolas são lugares fictícios. (O álcool possui efeito mórbido, era-lhe impossível alcançar a relação entre uma coisa e outra). Fábrica de moldagem, crença, idealismo, cuja formatação é o cultivo de boa posição social e financeira. Avesso ao luxo? Se a sociedade é resultado desse cultivo, desse amanho, o cultivo está perdido. Perdido na escuridão reluzente do lucro informativo com mais alta taxa de perceptibilidade. O período de formação coincide com o período em que está sendo roubado desconhecendo as técnicas já dominadas. Furtados no momento em que a pedagogia deixou de ser integrante da filosofia, da reflexão, da existência...   Ah!  Disse, sou feliz, mas ver tudo assim me dói.  A escola é onde devemos meter os filhos enquanto trabalhamos o lado adverso do dia-a-dia para modificá-lo. Para transformar conformação em utilidade. Há esperança de que os diplomados salvem o globo e passem a nos dessedentar. Pela primeira vez olhou o espelho e viu que estava enganado em quase tudo. Um pássaro cantou para avisar que estava amanhecendo. Continuou: No futuro um robô escovará nossos dentes e pressentiu o futuro cansado do jogo pré-moldado das próprias convicções. Calou-se prosseguindo antes que alguém interviesse.  Desabafou: há esperança de que os diplomas salvem o universo. Salve a terra da grande cilada. Salve a cosmogonia. Talvez uma das fantasias mais perfeitas e alegres do mundo. Apelou para o fracasso que aos poucos ia sedimentando em seu fundo melancólico. Fundo que escondia perfeitamente. O que importa é a educação física, o numerário! O fruto da educação pelos noticiários é o ouro que não enxergamos.  Acabaria por doar bem mais conselho do que podia imaginar como se alguém lhe solicitasse o tema. É preciso desconfiar um pouco dos que nunca foram reprovados em nada. Arrebatou como máxima. Naquela manhã estava incansável. Com o brilhantismo de quem encontra pela primeira vez um Eldorado de axiomas picantes. A miséria em geral é fruto do resultado da ausência de certa mobilidade, certa destreza na qual se dá o nome de competitividade, enquanto o verdadeiro educador prefere a solidariedade.  Sem falar no abandono do início. Desamparo das referências. A fragilidade da sociedade carente de recursos, indigente de moeda, indigente de bolso, trabalho, saúde, casa, alimentação. O que está aí é a ausência de profunda desatenção sobre o processo formativo com grande carência de recursos enquanto a civilização espera auxílio oriundo do trabalho. Ah! E sem nutrição só pode haver heroísmo.
     Professores! Bradou de modo espetacular. Os verdadeiros heróis, nunca Alexandre, O Grande.  Houve um profundo silêncio que se abriu em cada rosto na releitura despropositada. A frase provocou um tédio danoso no instante em que todos ficaram embriagados sem bebida ao passo que a criatura semi-embriagada acordava. Muito antes que alguém dissesse que ele ainda se mantinha bêbado e com sua forte tendência a genialidade relembrou Einstein com a lâmpada daqueles olhos rebrilhando no discurso da tarde.  Que inconsciente contribuição para humanidade! Ter sido considerado imbecil em sala de aula.
       - E por quê?  Perguntaram-lhe.
 Porque só existe educação no pólo central desse azar, disse, apagando o cigarro calmamente.

Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 20/11/2007
Reeditado em 30/10/2010
Código do texto: T744416
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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 54 anos
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