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Na televisão feito Redentor

     Quarta-feira, 08 de maio. Dia da Cruz Vermelha. Data que marca o fim da Segunda Guerra, dia do Pintor e do Artista Plástico. Lua Cheia. Véspera da visita do Papa Bento XVI, representante direto de Deus na terra e sobrevivente da Segunda Guerra Mundial. Por decisão isolada Procópio promoveu sua alma ao espaço da Presença Divina. Observando a folhinha disse: Levanta-te e ora.  Orar livra-nos da desolação assim como a filosofia dissipa o mal. Subiu no carro com seu séqüito e foi parar nos estúdios da TVT para entrar no ar na figura de Cristo.
     Em casa o irmão não sabia da vida que Procópio levava longe das cartas, dos telefonemas e  andava preocupado. O que teria ocorrido? Ligou a televisão por distração quando entrava em cena o famoso programa Aleluia! Aleluia!
     - Vamos receber o homem que diz ser o Redentor!
 Foi um tremendo impacto. Era o  Procópio em carne e osso. Havia assumido a personalidade divina. Almerindo pulou da cadeira virando o café quente no tapete. Chamaram mulher, filhos e vizinhos para assistir. Amontoaram-se  na sala e a vizinha D. Selma acalmou Almerindo com o chá da sensatez. (Havia namorado o Procópio na adolescência).
     - Se veste assim para a chegada do Papa! Disse D.  Selma com um  nervosismo nascido do fascínio atrasado.
     Foi um alívio sobre a dificuldade que consiste em associar a vinda do Papa ao Brasil com a chegada do Redentor na televisão. Seu consangüíneo.
     Quando era menino em Rio Grande havia um senhor distinto com alma de Chacrinha que era um encanto. A mesma cartola, a mesma buzina, os mesmos trajes, a mesma urbanidade em cada passo trescalado do ídolo. Na mais antiga cidade do Rio Grande do Sul seu Chacrinha era imagem querida por todos na cidade.
     Uma vaga tristeza se apossou de Almerindo. Sequer possuía uma fotografia ao lado do apresentador. Menino soltava a mão  e corria para dentro da praça Tamandaré. Para subir nos velhos bondes estacionados na praça. Bondes que mais se pareciam velhos heróis abandonados para diversão das crianças. Com o passar do tempo Almerindo compreendeu o fenômeno quando aparou as costeletas para ficar parecido com o Elvis.
     O mano era religioso, devoto, sempre presente nas procissões. Ele não. Ateu, posto que amável, humilde, correto. Tratava a religião alheia com respeito de poética ilusão de coisa.  Para ele o desconhecido era semelhante ao ignorado. Sua fé. Para Almerindo a visita do Papa lembrava à chegada de Procópio após longos anos numa coincidência absurda. A guerra havia passado, o medo havia terminado e havia.  Procópio desejava a vida religiosa, era isso. Foi quando, sem mais nem menos, repousou em D.  Selma um  olhar duradouro que ela compreendeu como amor tardio e retardado.
        No estúdio pela casa dos quarenta anos de idade Procópio recebia pela primeira vez os aplausos da platéia.  Devia passar pelo povo sem susto. Povo acostumado ao mundo da diversidade. Livre no carnaval. Lembrou do tempo em que o Beijoqueiro furava barreiras para beijar.  Cidadão com maior capacidade de “beijo inusitado” encontrado na história da humanidade. Alcançaria Procópio  tamanha notoriedade?  Seria celebridade nas ruas?  Respingaria em Almerindo também o sucesso?  Eis que seus olhos viram todas estas coisas e o céu continuou o mesmo.
    Só a tentação das dançarinas incomodava Almerindo. Se fosse com ele seria diferente; é sempre assim; lamentou, sem que pudessem alcançar suas palavras. As moças vestidas para o mar tentavam o Procópio na figura do Redentor de forma inquietante. Enalteciam as belezas radiosas sem compreensão do abismo entre os dois mundos. Mundo originado do mesmo modo. As beldades se apresentavam incapazes de compreender a castidade postiça.  Dançavam em torno dele com movimentos provocantes. Decerto procuravam trocar o salmo pelo Salomão.  Procópio era dotado de grande espírito.  Espírito de réplica e tréplica. Apresentou fisionomia prática. A Indiferença verde da inocência com seus quarenta anos de idade e algumas pedradas. Havia colocado a formosura na parte secundária da história, solteirão, sem plano inicial.
     Apresentadora:
     - ... Mas essa moça é muito bonita? Que pecado existe nela? Quando o sexo começou a ser horroroso?  Procópio respondeu: Primeiro  devemos buscar o fim dos ímpios! Fez um gesto de santo com voz solene. Os aplausos foram demorados.  Alguém da platéia gritou: E de mês em mês, e de sábado em sábado, ligamos o noticiário e o mundéu parece ter mudado pouco.
     - Converter-se-ão num passe de oração, minhas filhas e meus filhos. Levantando a voz para o auditório.
    Almerindo ouviu aplausos em casa.
   Todos queriam saber se Procópio apareceria nas novelas. Se Cristo voltaria para o interior. Se no futuro alcançaria à beatificação. Se o licor que o Procópio tomava com gosto venderia santificado.
Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 20/11/2007
Reeditado em 30/10/2010
Código do texto: T744430
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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 54 anos
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