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Pobre menina rica

        Certo dia, quando retornava do trabalho, presenciei uma cena constrangedora dentro do ônibus. Uma menina de aproximadamente 12 anos entrou naquele veículo com destino a sua casa. Quando se aproximou da roleta, tentando passar sem pagar, foi tratada com bastante crueldade pela cobradora. Esta, munida de argumentos, defendia a empresa em que trabalha, tratando a menor com tanta rispidez, chamando a atenção dos passageiros. A funcionária mostrava ter razão, pois, de acordo com o que falava, ela recebia ordens da empresa para agir daquela maneira.
        Fiquei por um bom tempo observando aquela cena, querendo ver até que ponto chegava a arrogância da cobradora. A garota, depois de ser proibida de passar, sentou-se, calada, lá no canto da janela de trás. A funcionária continuou agredindo a menina com palavras ásperas, a exemplo de: "Você está dando prejuízos à empresa; você não passa por aqui; só vai sair daqui se for pulando pela janela, por aqui você não passa"...
        O que mais me comoveu nesta cena foi o comportamento da criança que, embora sendo maltratada, permanecia no seu cantinho, tristonha e calada. Se ela tivesse falado talvez teria apanhado, pois aquela mulher estava uma "fera". E continuava o falatório: "por que você não desceu? Eu não mandei você descer?" E, neste momento, a cobradora enfurecida se levantou e foi até onde estava a menor e repetiu as palavras grosseiras. Nesta hora começa a rolar as lágrimas no rosto humilde daquela criança que só fazia olhar, sem dizer nada. Finalmente, uma mulher compadeceu-se e bradou: moça, pode deixá-la passar, eu pago a passagem.
        Mesmo com a passagem paga, a "fera" não se conteve e ainda fustigava a pobre menina, vociferando: "olhe, você vai passar porque ela pagou, mas da próxima vez se você não tiver dinheiro, nem entre; você está dando prejuízos à empresa".
        A menina, cabisbaixa, passou pela roleta, sem abrir a boca. Depois, olhou para aquela que lhe estendeu a mão e disse: obrigada! Foi a única palavra que saiu dos lábios daquela pobre menina, que a considero riquíssima pela atitude humilde e mansa diante do demasiado orgulho da funcionária de tal empresa (que é bom nem falar o nome, para evitar constrangimentos).
        Meu Deus, quanta arrogância! Aquela menina demonstrava ser uma vítima da situação em que se encontra o nosso país. Ela, talvez estivesse vindo de um dia de trabalho nas ruas da cidade, procurando adquirir comida para alimentar a família. Nunca vou esquecer o seu olhar simples, que apelava para a compaixão. Sem pedir, sem esboçar qualquer reação, ficou à espera de uma atitude de bondade. É... para ser rico de espírito, não é necessário ter dinheiro! Esta riqueza brota do íntimo do nosso ser, onde ninguém consegue ver. Que lição nos deu a pobre menina rica!
Betty Nobre
Enviado por Betty Nobre em 20/11/2007
Reeditado em 29/09/2010
Código do texto: T744884

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Sobre a autora
Betty Nobre
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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