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PAZ & JUSTIÇA SOCIAL

Por estas plagas dos torrões do sul do mundo, ao forasteiro recém–chegado com olhos de olhar e ver, permanecem as pálpebras suarentas de ventos e pó do ancestral açorita e suas seqüelas históricas: Rio Grande. Pelotas.

Este colono de além-mar dorme eternamente no revolto das entranhas desta nesga de terra lavrada margeando a Lagoa dos Patos, onde sumiram um dia – faz muito tempo –, a prosperidade agrícola e a riqueza do sebo e do charque. Tudo culpa dos ventos do poder épico.

Cochicha comigo a Poesia, dama solitária de vestes rotas. A linguagem única que reconstrói o mundo espiritual quando a realidade e suas circunstâncias são hostis.

...

Casinhas do Arraial, perto do Povo Novo. Suas cumeeiras pardas de pó sofrem há muito tempo o mesmo vento. Nem por isto são menos belas.

Olha-me com olhar esbugalhado uma grossa argola de ferro. Faz duzentos anos que ela está ali, presa no tronco de uma figueira.

Talvez seja o eco lancinante dos gritos dos escravos este zumbido que paira no ar. Um látego perpétuo gemendo nunca mais. Que existem somas de ais, de dolorosos gemidos em cada tesoura, em cada oitão de casa antiga.

A fada-madrinha sabe que é urgente a ternura...

Liberdade e o exercício dela, na democracia, é sempre fator assegurador de que um novo tempo é possível, no sonho socialista. Nunca falece a esperança. E por esta vale a pena o enfrentamento e morte.

A escravidão fugida das senzalas adquire a possível liberdade na guerra, com Zumbi dos Palmares, o seu mártir, no século XVII.

Lembram de Federico García Lorca, poeta andaluz, abatido pelos projéteis do Franquismo, na Espanha, século XX?

Enquanto o solidarismo é o permanente espelho do verdadeiro poeta, inoculemos o dardo da inspiração – novo ou antigo – no coração dos poucos que lêem, neste país pleno de futuro e também pejado de ansiedades sociais e políticas.

“Beleza é fundamental” como queria Vinicius de Moraes, não só para as mulheres e, sim, para uma Pátria que precisa cantar o contemporâneo e suas despertas angústias.

Nada de desesperançar. O Brasil, intenso e imenso, vive no coração de seus poetas.

Em cada esquina, à mercê dos ventos do poder, há sempre um Judas pra beijar o próximo e o nem tão próximo. Os trinta dinheiros continuam sendo a mola-mestra que alavanca o mundo. E todos querem levar vantagem em tudo e por tudo...

A fada-madrinha sabe que é urgente a ternura para todos os irmãos. A possível linguagem do entendimento deve ser para o coletivo. O solidarismo tem de ser a pedra-de-toque da Unidade.

Não adiantam estátuas para louvar a Liberdade, se os pés chafurdam na Injustiça. E para milhões de negros e brancos dói a fome no estômago.

De novo, aos ouvidos moucos, o mesmo látego da escravidão.


- Texto literário (composto de excertos temáticos de obras anteriores publicadas no Recanto das Letras) integrativo do discurso com que o autor agradeceu a concessão do Troféu “Deputado Carlos Santos”, na qualidade de LITERATO DO ANO, que lhe foi agraciado no Dia Estadual da Consciência Negra, em 20 de novembro de 2007, pela Câmara Municipal de Porto Alegre/RS.

– Para o livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006 /2007.
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/745024
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 20/11/2007
Reeditado em 24/07/2008
Código do texto: T745024
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2771 textos (754578 leituras)
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Joaquim Moncks