Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

     PONHA A CULPA EM MIM

        Vou logo avisando que nem sei se isso é uma crônica ou o que seja. Vou avisando também que pouco me importa se classifiquei adequadamente ou não, se vão criticar, dizer horrores, me lixo. Não sou cult nem quero ser. Não sou politicamente correta o tempo inteiro e não tenho pretensão de tentar ser. Só o que sei é que muita coisa que já gastou meu tempo, meus sentimentos e minha paciência, agora não vale a little piece of shit

       Acabo de passar por uma esquina e a cena que está lá, está na frente dos meus olhos: um sujeito de seus vinte e poucos anos no chão estirado e morto, um monte de gente com gosto pelo mórbido e que não ajudam em nada olhando com um horror hipócrita e o carro com o motorista que o atropelou ao lado, com o tal motorista em pânico, se perguntando como fez aquilo. 

        Boa pergunta: eu não sei como ele fez. O fato é que o cara tá lá. Como na música: tá lá o corpo estendido no chão. E eu, com essa cabeça loura fake, fabricada em farmácia, com a mesma mania de sempre saio do cara morto e passo por tudo que se pode imaginar: das ciências ocultas às mais conhecidas. Começa a sessão filosofia. Inevitável. Anota aí: teu psiquiatra se enganou quando disse que você tem uma cabeça ótima, garota. 

        Quantos eram os poucos dos vinte e poucos que tinha o tal sujeito? Não importa. Como não? Claro que não. Vivo ou morto, eram os vinte e pouco e acabou. 

        É essa a palavra. Acabou. Que planos fazia ele para o final de semana? Que pensava estudar ou em que trabalhar, o que queria viver ainda? Talvez pensasse em conhecer algum lugar exótico no futuro. Talvez planejasse casar-se com alguma suposta alma gêmea e ter sua prole pra montar um time de futebol. Talvez tivesse deixado pra ver a namorada amanhã porque hoje tinha um compromisso urgente de trabalho. Não importa. Não vai fazer nada mais disso. E o que importa tudo isso? 

         Importa porque vejo gente que faz planos sem se dar conta que a vida é algo que acontece enquanto se ocupam tanto de fazer planos. Importa porque milhares ou milhões de criaturas "normais", "enquadradinhas", etc e tal deixam pra depois um grande amor que encontraram porque no primeiro empecilho ou diferença já acharam que isso não era perfeito o suficiente e foram correr atrás das coisas que o mundo pinta de dourado e vende como ouro puro. 

     Pobres criaturas:quando acordarem, talvez não haja volta. Talvez nem acordem. Talvez nem tenham tempo. Talvez tentem, mas o que ficou lá atrás caminhou pra outra estrada e agora ... agora, that's just history... Talvez ganhem uma baita depressão e não saiam dela nunca. Talvez se conformem em viver pela metade achando que é suficiente e sufocando a própria incompetência. 

       Talvez. Pode ser. Quem sabe. Você acredita nisso? Sorte sua... Eu, prefiro viver cada um dos meus dias. Não sei se existirá amanhã. Não tá bom? Achou horrível? Tudo bem. Ponha a culpa em mim. Eu me perdôo...

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 20/11/2007
Código do texto: T745193

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (157132 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/08/17 04:39)
Débora Denadai

Site do Escritor