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Exposição

Queridos amigos e amigas.

Estava pensando qual título colocaria nessa crônica e pareceu-me que "Exposição" foi a melhor conforme vocês perceberão ao longo dela.
A COMGÁS, a companhia paulista de distribuição de gás encanado, está chegando à nossa cidade (Piracicaba) com mais força, inclusive no que tange ao gás encanado para uso doméstico.
Quando uma empresa se estabelece em uma cidade as atividades culturais acabam por vir à reboque, felizmente. No caso da COMGÁS, a primeira exposição foi feita em praça pública, relacionando a produção artística com a realidade política e social ao longo das cinco últimas décadas do século passado.
Esse tipo de exposição me suscita dois sentimentos: até a década de 60, uma admiração profunda pelo que se fez no Brasil: a bossa-nova dos anos 50, Brasília, a resistência ao golpe e por aí vai.
Na década de 70, já começam a aparecer fatos e imagens que ninguém me mostrou ou que vi em alguma restrospectiva, ao contrário, eu as vi enquanto os fatos aconteciam. Interessante mas quando começamos a contar os anos, chega a ser um fato para se admirar.
Agora, quando chegou nas imagens referentes aos anos 80, aí eu me senti um... digamos, histórico: a foto do Comício das Diretas, por exemplo, me evoca dois fatos que me trazem boas lembranças. O primeiro, a agitação no Centro Acadêmico do curso de Ciências Sociais da USP ao qual eu pertencia e que decidiu mandar uma "delegação" com faixas de apoio ao movimento, a "namoradinha" que me acompanhou e o metrô com as catracas liberadas pelo então governador Franco Montoro.
Ficamos assistindo dezenas de manifestações, cantamos o hino, participamos da história mesmo que tivessemos de esperar mais alguns anos para votar para presidente. Hoje, vendo em retrospectiva, foi uma luta que valeu a pena, apesar dos pesares. Aliás, como sempre vale a pena lutar pelas liberdades democráticas , as mesmas que se encontram tão ameaçadas em nosso continente.
Outro dia, ajudando uma pessoa da família que fazia uma lição escolar, vi uma foto do comício e comentei com ele: "- Olha! Eu estive aqui nesse comício!" e passei a explicar como foi.
Nada foi dito com clareza mas quando disse que já se passavam 24 anos do fato, fui silenciosamente chamado de ... "histórico". Bem, coisas da vida! O tempo passa, queiramos ou não.
Outro fato que me fez recordar com saudade dos anos 80, foi uma foto dos Titãs! Gente, eu conheci os Titãs bem no comecinho da década de 80, em um maravilhoso programa que havia na TV Cultura (a TV educativa de SP) chamado "Fábrica do Som" que era apresentado pelo Tadeu Jungle. Que saudade! Tantos grupos que vemos até hoje como os próprios Titãs, Ira (sem exclamação) e outros grupos que já não existem mas deixaram saudade como Arrigo Barnabé e a banda Sabor de Veneno, o saudoso Itamar Assunção, Asdrúbal trouxe o Trombone, Língua de Trapo e tantos outoros, estavam sempre lá mostrando seus talentos.
Isso me faz relativizar um pouco a questão da idade já que existem coisas que só quem viveu a época sabe o que significam. Em um mundo onde a juventude e a beleza física são cultuados á exaustão, parece quixotesco falar que tenho orgulho dos meus cabelos brancos, uma das caracterísitcas que denotam a passagme dos anos mas é verdadeiro.
Não abro mão de nenhum dia de minha idade! Vivi um tempo onde ter ideais era praticamente uma exigência, fossem quais fossem os motivos que nos colocavam em movimento e onde a "pasteurização" dos comportamentos , a unificação (ou tentativa) do pensamento era algo rejeitado com exaustão e nem se falava em "globalização".
Tinhamos utopias, algumas cruelmente desmentidas com o andar da história mas acredito que a geração a qual pertenço tinha um projeto, uma intenção, uma visão bastante generosa e transformadora, posteriormente traída à exaustão por pessoas que foram cooptadas exatamente por aqueles que criticavamos.
No entanto, seguimos em frente, esperando que o futuro seja generoso conosco e com nosso eventual legado. Nas exposições da vida e na exposição de nosso próprio passado, renovamos alguns dos nossos propósitos que perduraram no tempo: um a rejeição firme ao preconceito, a desumanização, à uniformização do pensamento, às formas discriminatórias, seujam queis forem.
Se sobrevive a utopia, sobrevive o sonho e com ele, a intenção de mudar o mundo jamais morrerá. Basta apenas colocá-la em ação! É isso!
André Vieira
Enviado por André Vieira em 21/11/2007
Código do texto: T745781
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Sobre o autor
André Vieira
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 52 anos
64 textos (8558 leituras)
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André Vieira