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Computador e o Conde

            Não estando de boas o Conde atendia com azedume qualquer comunicado.
          - Aqui quem fala é o barbeiro do John Lennon.  Quer deixar recado?
           Ninguém falaria com o Conde nos próximos meses. Havia adquirido  computador. Instalou a máquina  alojando uma  duvida: a fenomenologia da imagem na quarta geração dos circuitos integrados. Estava com a Netintert na alma, corruptela de internet.  Por um décimo de segundo se deparou com a expressão: “link quebrado” e sem sobrinho de seis anos para solucionar problemas com micro chips em casa.
           - Link quebrado para você também!
Devia ser  botão e pronto. Virtualmente estava Conde e idiota. Percebeu o quanto um obtuso virtual podia ter razão em toda extensão da realidade aplicada entre o sim e o não menos ele. Instalou a máquina com seus sistemas em dia de feriado nacional.  Pelo menos havia ficado com o aparelho ultra moderno na sala. Estava acompanhando mal o uso e nada acontecia no primeiro dia. A página não abria, nada funcionava por mais botões que apertasse, era inútil. Sem comentário. Calmo como convém a um Conde desligou tudo.
           - A máquina tem seus sentidos.
           Sartre devia tomar cerveja com ele para refletir sobre a expressividade da imagem. Houve um tempo em que um bom príncipe apenas ligava o brinquedo. Hoje há um excesso de perfeição reunida, lamentou.  Mas é estágio novo da técnica! Ressaltou no estilo de sempre. Estilo de Conde.
          Vestiu-se com gala indo parar num bar de verdade.  O serviço da casa depositou-lhe a garrafa inaugural. A garrafa nunca mais seria a mesma. No rótulo havia uma telinha que automaticamente exibia a Netintert. O invento permaneceria na crista da onda digital por milhares de anos. Com o palito da azeitona o Conde acionava comandos para mudança de imagem e assunto.  Assistia garrafas divertidas de imagens com os melhores lances de futebol. Bebia olhando mais vezes para a garrafa.  Na verdade corria atrás de alguém por dentro do rótulo. Mandava recadinhos. (Computador é você quem faz? Que passatempo!) Em casa o seu computador estava inativo. Mantinha-se filosoficamente inquieto com a novidade.
Esperava que Sartre aparecesse com a Simone. Seria o melhor do existencialismo.
          Diante do espelho, naquela hora diurética do lazer achou Sartre bem feio.   Riu de si, Conde, “louco da cabeça” e recheado de manias.  Pelo menos é o que pensava da própria teoria da razão clara eclipsada pelo inferno do próximo. No caso Sartre.  O eterno filósofo pularia da cadeira com a tese. Naturalmente argumentaria quanto à autoria da questão.  A sala de bate-papo virtual no rótulo da birita lhe abria novos temas. O objeto virtual na prática era a fenomenologia da embriaguez da coisa a seco. Coisa de Conde. Quis definir a máquina. Estava ficando velho e cansado da evolução.
        - No começo era só o livro e líamos. Hoje estamos diante de link quebrado, domínios, etc. Quem defluiu o quê? Interativo e táctil. Fruto do conto almofadado da gema dos dedos de um...
        – O senhor Conde colocou link quebrado na argumentação sobre a modernidade?
         - Lentos o quê?  Perguntou a si mesmo entre o ser e a robótica. Pouco se lhe dava compilar no kernel ou buscar outra devoção. Navegar importava. Navegar é que era preciso, pois navegar sempre é preciso.   Vai o Conde procurar no Houais o assunto sobre link. Link sumido, alquebrado, submetido ao conflito das instalações. Chamou o técnico. O técnico passou a borracha clássica de colégio na esfera do mouse.
       – Está tudo bem! Todo mundo sabe um pouco de computador não é? Está pronto. Disse-lhe "pronto  caro  baronete!" o que lhe provocou mal estar. Ao sair brincou: desenhe novamente os seus brasões, imprima e faça xérox.  A nova geração sequiosa de ordens de comando deve ser grande, concluiu o Conde ao ver o homem desaparecendo.
      Programa é verificar no website qual o link mais ativo do velho Conde banhudo, criatura alegre e  pachorrenta que gastava seu tempo com prazeres da imaginação. Jovem havia sido magro para melhor feitio de nobre. Velho engordou e continuou em cima das tardes desenhadas em bondes no papel de parede. Estava gordo, havia sido magro. Concluiu que comia bem assistindo  televisão. Pedaços enormes de pão com bife e alface. Escondido.  Antes de dormir sentiu que podia deletar um sonho ou até mesmo depositar cada um deles no arquivo mais próximo.
     Estava sendo dominado por um sistema. O seu sistema de Conde.
Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 21/11/2007
Reeditado em 30/10/2010
Código do texto: T746256
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
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