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Jogatina

Há exatos 35 anos, Norma e Carminha tinham uma rotina bem definida: encontravam-se todas as quinta-feiras, religiosamente, as 19h00. Tomavam um chá, comentavam os últimos capítulos da novela, colocavam as fofocas da vizinhança em dia e jogavam uma partida de tranca.

A rivalidade entre as duas era tanta, que toda quinta-feira, não importava o que acontecesse, elas estariam reunidas na casa da Carminha, jogando. Mesmo que fosse aniversário do filho de uma ou nascimento do neto da outra, a partida tinha que acontecer.

Naquela noite, Norma sugeriu abrir uma exceção e, em respeito ao falecimento do marido da amiga, tentou adiar a partida. Mas Carminha, que vinha de duas derrotas consecutivas e estava visivelmente irritada com a situação, refutou a idéia e insistiu para que a jogatina começasse.

- Tem certeza que não quer adiar a partida, Carminha.

- Joga logo, Norma.

- É que você não me parece muito concentrada hoje…

- E aí, vai comprar da mesa ou do monte?

- Mas Carminha…

- Norma, você está me desconcentrando…quer fazer o favor de pegar uma carta logo?

- Bem, você que sabe…

- O jogo, Norma!

- Não sei se você percebeu, mas este sete de ouros era tudo que eu precisava para fazer minha canastra real…

- Coisas do jogo…

- Você tem certeza mesmo que o que aconteceu ontem não está te atrapalhando?

- Ontem…ontem….parece que você vive do passado, Norma!

- Não é essa a questão, Carminha…

- A questão é que você está com medo de perder, Norma. Isso sim!

- Não é isso…é que vejo você um pouco desatenta hoje…

- É só uma maré de azar, mas na próxima rodada esta situação muda…

- Olha, por mim não tem problema mesmo se jogarmos só na próxima quinta, Carminha…

- Vai Norma, é sua vez.

- Bom, se você insiste…mais uma canastra real, Carminha…e ainda bati direto. Passa o morto?

Ao ouvir a palavra “morto”, Carminha lembrou-se do marido e toda sua irritação virou tristeza. Ela começou a chorar e só parou depois de beber três copos de água com açúcar. Desde então, as duas só jogam dominó.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 21/11/2007
Código do texto: T746477

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
68 textos (5656 leituras)
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Ricardo Polinesio