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Será Que Não Sou Eu?

Eu já sou pequena. Mas ele. Ah! Ele. Ele era muito menor do que eu.
Calça social. Camisa amarelada. Sapato brilhoso. Uma pequena e surrada pastinha de couro preto, daquelas bem antigas, debaixo do braço.
Senti que me observava atentamente enquanto eternizava vivências do cotidiano do mercado público da ilha da magia.
Meus olhos viram as mulheres penduradas no orelhão, a multidão a caminhar no calçadão, os pombos nos galhos da árvore.
E não sei, mas acho que o encantamento estava estampado em minha face.
A alegria tinha colocado uma placa em meu olhar...
Porque ele veio...
Bem de mansinho ele veio se chegando, se chegando e quando vi, estava ali, ao meu lado, olhando como um velho amigo, as imagens no visor da máquina fotográfica.
Sorrindo de vez em quando com o canto da boca. Encabulando-se quando eu o olhava nos olhos.
E sem que eu falasse nada, sem que perguntasse algo, me contou:
- A senhora sabia que um dia o mar vivia aqui? Pois vivia. Vinha até aqui e barcos atracavam no cais.
- É mesmo? Nunca tinha ouvido falar.
- Mas é a mais pura verdade. Então em nome do progresso resolveram fazer o aterro. E o mar, o mangue virou isso que é agora.
E com os dois braços, uma mão segurando a pastinha, ele traçou no ar o mapa de como era antes e de como era agora o aterro do mercado público.
- O senhor é ilhéu?
- Se sou um mané? (Como algumas pessoas chamam os nativos da ilha de Santa Catarina).
- É.
- Não. Não sou mané não minha senhora, eu sou do estado do homem que fez bagunça lá em cima...
- É mesmo? (E lá sabia eu que lugar era esse?).
- É. E a senhora deve estar se perguntando que estado é esse, que homem é esse, que bagunça que é essa e que lugar é esse lá em cima não é?
- Sim. Estou mesmo. O senhor poderia me dizer?
- Eu sou do Alagoas!
- Ah! Sei!
E nem sei que cara fiz porque ele rapidamente me disse:
- Mas não sou igual ele não, não se preocupe. Eu até gosto de política mas não sou dessa laia não. Essa meleca que ele fez lá eu não aprovo. E já virou tudo em nada porque o povo já esqueceu e ainda votou nele.
- Eu às vezes não entendo o povo.
- Ih! Dona! O povo é tudo sem memória. Eu sei. Já viajei esse Brasil inteiro. Já estive no Rio de Janeiro. Em São Paulo, Minas Gerais. Estive em tudo que é lugar. Conheço o povo desse Brasil. É tudo igual. Tudo igual. Hoje faz uma coisa e amanhã nem lembra mais.
E eu continuava caminhando, olhando daqui, olhando dali e tirando fotografias. Ele caminhava ao meu lado descontraído, conversando.
- Tira daquele homem ali ó! E eternizei o velho homem sentando pensativo no banco da praça.
Olhamos juntos a foto.
- Linda! Ele disse.
- Original! Eu respondi.
E ele não parava de falar.
- A senhora tá vendo esses paralelepípedos? Eu não sei porque colocaram essa coisa nessa praça. A senhora veja. Tô vendo que a senhora usa tênis. Mas a senhora veja. Se a madame vem com um sapato de salto alto fazer compra no mercado público. Sabe o que acontece?
Fixei os olhos nele com uma imensa interrogação encravada entre eles.
- Um sapato de salto alto, de quase um palmo de altura, não dura um dia aqui. É uma vez a madame vir no mercado público e lá se foi o sapato. Deviam pensar nisso quando fazem as coisas.
- É. O senhor tem razão. Tem razão.
- Claro que tenho razão. E olhe, eu vim pra cá em 1964. Faz muito tempo. Muito tempo.
Sim eu sabia. Eu nem tinha nascido ainda. Fiquei imaginando sua idade. Parecia tão jovem. Mas já somava mais de 70 anos me disse.
- Então quando eu vim, isso tudo era diferente. A cidade era diferente. Não era isso que a senhora vê agora.
Fiquei imaginando como seria a cidade naquela época.... Viajei nas palavras dele.
Interessadíssima, guardei a máquina fotográfica e fiquei lá, em pé na frente dele, ouvindo-o falar do passado, da história, de sua família.
Ele, o braço esquerdo que segurava a pastinha preta, atravessado em sua frente apoiando o cotovelo direito, a mão no queixo, olhando sempre as coisas ao seu redor e falando...
- Então veio o governador Ramos (acho que era esse o nome – eu gaúcha – não conheço a história política da ilha de Santa Catarina). Sabe o que ele fez? Resolveu fazer esgoto. Mas e quem disse que na hora de fazer pensaram no tal do tratamento? Pensaram nada. E cavaram buracos, colocaram tubos e jogaram a água no mar. Agora tá tudo assim. Esse cheiro horrível todo dia no ar. Toda cidade é assim. O ar tá contaminado de esgoto. Eu acho uma pena.
- É uma pena mesmo.
- E a senhora já ouviu falar de nossas praias? São as mais lindas do Brasil. Mas a senhora veja. Fizeram os esgotos, não planejaram e agora tá desse jeito aí. Praias sujas, esgotos a céu aberto. Uma tristeza.
- Uma tristeza sim.
- A senhora sabe porque vim morar aqui?
- Não.
- Porque quando vim aqui pela primeira vez a cidade era limpa, bonita e não tinha violência. Hoje é muito pior do que em outros lugares do Brasil. É tudo igual. A senhora já viu os morros? Cheio de bandido. De traficantes. Todo dia morre um. Todo dia desaparece alguém por causa de droga, de roubo, de assassinato.
- Mas isso tem em todas as cidades. Onde tem gente, tem problemas.
- E a senhora acha que eu não sei? Eu sei disso também. Mas alguma coisa podia ser feita. Se os políticos não roubassem tanto ia ter dinheiro para dar casa, comida e escola para o povo. Mas eles não conseguem ficar sem roubar. A senhora viu a roubalheira que está lá em cima? Uma disputa para ver quem rouba mais. Cada dia pior.
- Sim. O senhor tem razão.
- Sabe? Minha filha mais velha? Ela estudou. Fez curso especial. A faculdade, sabe? Meus dois outros filhos também. Mas a senhora acha que eles conseguem um trabalho de acordo com o que estudaram? Primeiro as pessoas olham a cor, depois a roupa, depois o bairro onde eles moram e então... nada de emprego. Minha filha fez concurso público na prefeitura. Passou em décimo lugar. A senhora acha que chamaram ela? Já tem dois anos que fez o concurso e nunca tem vaga. Nunca tem vaga.
Olhei a hora no celular. Nossa. Já estava conversando com ele há quase duas horas. Nem tinha notado o tempo passar.
Ele percebeu que fiquei preocupada...
- Não se preocupe, se a senhora precisa ir tem que ir. Nem se preocupe comigo não. Eu vou ficar por aqui mais um pouco e depois me vou embora também.
Expliquei que tinha de almoçar, depois pegar um táxi para estar às 13 horas em ponto na rua Nereu Ramos para a primeira de minhas três reuniões da tarde.
- A senhora é política?
- Não. Não sou. Mas luto por políticas públicas que garantam o direito à plena cidadania.
Ele fez que sim em silêncio, dizendo-me com o gesto que entendeu tudo.
- Eu queria pedir uma coisa para a senhora antes da senhora ir.  Posso?
O coração bateu forte. Fiquei pensando no que ele pediria...
- Se a senhora acredita em alguém, a senhora sabe do que eu estou falando. Estou falando assim de uma força espiritual. A senhora acredita?
- Sim eu acredito. Eu acredito em Deus. E na salvação em Jesus.
- Pois então se a senhora acredita, eu lhe peço, quando a senhora fazer suas orações do dia, a senhora peça pelos políticos de nosso Brasil, que eu acho que só Deus para mudar eles.
- Está bem. Vou incluir seu pedido em minhas orações diárias.
- E olhe. A senhora pede também pelo nosso presidente. O Lula. Eu sei, ninguém gosta muito dele. Eu também não sou de gostar tanto, mas eu acho que foi bom colocar lá em cima um presidente como o Lula. Tava na hora de colocarem um presidente humilde, do povo, sem faculdade, mas que tem um coração amoroso. Mas a senhora pede por ele também porque ele tá rodeado de gavião.
Eu sorrindo prometi pedir sim. (Claro que ia pedir. Se tivesse como mudar o Lula eu moveria céus e terras para conseguir).
E por fim ele me despediu.
- Então a senhora agora vai indo. Precisa almoçar. A senhora é uma pessoa muito boa. Não vou esquecer da senhora. Eu lhe chamei de senhora, mas nem sei se é uma senhora, tem cara de menina...
- Sou uma senhora sim, disse sorrindo. E eu também não vou esquecer do senhor jamais. E vou incluir o senhor e seus filhos em minhas orações também.
E então lembrei da máquina fotográfica.
- Posso tirar uma foto do senhor? Perguntei.
- Pode. Pode sim.
Peguei a máquina preparei e enquanto eu tirava a foto ele olhava para o meio da multidão e continuava a falar mais alguns motivos para minhas orações.
- Pronto. Olha como o senhor ficou legal na foto. Falei mostrando a ele a foto no visor.
- Muito obrigado. Disse-me estendendo a mão.
Estendi a mão que ele apertou com firmeza me olhando nos olhos com muito respeito.
- Como é seu nome? Eu esqueci de perguntar.
- Meu nome é Maria. E o seu?
- Meu nome é João. João Ferreira. Às suas ordens.
E falando isso, largou minha mão e foi caminhando, misturando-se à multidão.
Fiquei lá, parada, olhos marejados olhando-o ir. Logo desapareceu de minha visão.
Mas ficou eternizado no meu coração. Fiquei tempo pensando no senhor João.
O mundo ainda é o que sonhamos que seja. Basta olharmos com atenção ou nos deixarmos fitar por olhos inocentes e amorosos como o do senhor João Ferreira.
Voltei a acreditar no ser humano. Voltei a acreditar que podemos ser diferentes.
Fico pensando nele. Onde andará? O que estará pensando? Com qual Maria estará conversando hoje? Que Maria privilegiada estaria agora ouvindo suas divagações sobre a vida e o mundo?
E a pergunta suprema:
Quem é João Ferreira? Seria um anjo de Deus? Seria um homem da terra?... Será que não sou eu?
Maria
Enviado por Maria em 22/11/2007
Reeditado em 26/11/2007
Código do texto: T747655
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Sobre a autora
Maria
Blumenau - Santa Catarina - Brasil
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