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El Matador

Ao abrir o caderno de esportes do jornal da cidade e se deparar com a manchete “Matador, sozinho, dá mais um título para o Brasil.”, o garoto, ainda uma criança, não percebeu que o seu destino estava traçado. Maravilhado com aquelas palavras, com a sonoridade daquela frase, com o poder do “matador”, decidiu que o apelido que ele queria carregar para a vida toda era aquele: matador.

E, sem saber que apelido a gente não escolhe, a gente simplesmente recebe, o menino passou seus dias perseguindo este sonho.

Tudo começou na escola. Já no primeiro dia de aula, travesso que era, o pequeno Luisinho chegou ao colégio com um estilingue no bolso de trás da bermuda e, no recreio, o pimpolho não teve dúvidas: pegou a atiradeira, mirou no passarinho e acertou a vidraça. Sua primeira chance de se tornar um “matador” tinha ido por água abaixo.

Ainda um jovenzinho, passou a tentar cabular aulas no colégio. Não que fosse um rebelde, daqueles que os professores não querem ver por perto, mas sim porque queria ser conhecido como o matador de aulas. Mas, mais um tiro saiu pela culatra. Depois daquela história da vidraça, o menino sempre foi muito visado pelos seguranças da escola e era sempre descoberto.

Quando completou 16 anos, já um adolescente, daqueles revoltados com a vida, roubou a faca de churrasqueiro do seu pai e decidiu se tornar matador de aluguel. Fez amizades com a bandidagem da cidade e, em menos de uma semana de profissão, recebeu sua primeira missão. A chance de conquistar seu tão sonhado apelido nunca estivera tão perto. Porém, apesar da grande chance de realizar seu antigo sonho, o jovem, que nunca teve um instinto assassino, não conseguiu cumprir sua missão.

Frustrado, o garoto bom de bola, decidiu virar jogador de futebol. A posição em que jogava, claro, era a de centroavante. O menino então treinou muito e, em pouco tempo, subiu para a equipe profissional da cidade. O jogo de estréia seria contra o time da cidade vizinha, atual campeão do torneio mais importante da região.

Quando as equipes apareceram no campo, lá estava ele, todo orgulhoso, vestindo a camisa 9. O jogo começou tenso, muito equilibrado e o garoto sem muitas chances de marcar. Já no final do segundo tempo, o 0x0 insistia em permanecer no placar, quando o árbitro, caseiro, inventou um pênalti para a equipe da casa. O menino não teve dúvidas. Segurou a bola embaixo do braço e caminhou para a marca fatal. Na cabeça, o pensamento de que ao marcar o gol, finalmente seria apelidado como um verdadeiro centroavante matador.

Talvez tenha sido a tensão de decidir a partida ou a ansiedade de finalmente receber seu sonhado apelido, mas o fato é que o rapaz errou o chute. E pior, no contra-ataque, o time visitante ainda marcou o gol da vitória.

Desolado, o jogador foi para o vestiário ciente de que tinha desperdiçado sua maior oportunidade de conquistar o tão desejado apelido. Decidiu então abandonar aquela idéia. O “matador”, veja só que ironia, estava morto.

No caminho de volta para casa, ainda em seu carro, decidiu ligar o rádio para tentar aliviar sua decepção. E, foi ali, entre uma música e outra, que escutou uma notícia trágica: ainda na arquibancada, um torcedor havia morrido do coração durante o jogo. O “matador” renasceu.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 22/11/2007
Código do texto: T747753

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Ricardo Polinesio