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A última do Paulinho...

                Pô  mano... tinhas  que aprontar ... Eu não deveria me surpreender, pois ser  diferente era uma das tuas tantas especialidades. Afinal, convivi com isto por muitos e muitos anos e apesar de distante, ainda tinhas o dom de me surpreender ... Aquelas brincadeiras da infância que só tu sabias inventar e que  não sabíamos como iriam terminar, são inesquecíveis. Lembro daquela bomba que detonamos no corredor de casa e que abalou toda a vizinhança, á ponto de alguém  na vizinhança gritar em altos brados que o fim do mundo estava chegando. O projeto e a construção do tal artefato foi obra tua, como só podia ser e a tal "explosão controlada" causou um buracão no pátio, rendendo chineladas que sobraram para todos nós.  E o autorama que construístes na garagem de casa?  O troço foi tão bem feito que a gurizada do bairro fazia ponto todos os dias  para as corridas. Teve também o foguete que subiu aos céus da Rio Grande de São Pedro,  fabricado cuidadosamente que foi com os restos das “bombinhas” de São João compradas nas cercanias da Carlos Gomes, a mesa de futebol de botão e os campeonatos intermináveis... Algumas situações não eram tão engraçadas, principalmente quando desmantelavas os nossos brinquedos para ver como as coisas funcionavam lá por dentro. Na verdade, alguns até voltavam a ser como eram antes, apesar de algumas peças que sobravam.  Uma das tuas  famosas "invenções", foi um “elevador” feito com cordas, roldanas e um cesto daqueles que servia para ir a feira,  no qual fui levantado até o  outro andar da casa em uma terrível e perigosa viagem. Na verdade,  foi apenas uma vez, pois fomos interrompidos pelos mais velhos, que acharam a coisa muito perigosa e terminaram com a nossa  brincadeira. Passamos também pelos carrinhos de lomba, que na nossa  Rio Grande sem lombas, tinham que ser empurrados. É claro que o teu tinha que ser diferente, com direção manual e tudo o mais, pois não eras sujeito de te contentar com a simplicidade com que os outros faziam as coisas. Ainda hoje fico pensando que serias um engenheiro e tanto. Mas... nem tudo era tão tranqüilo! As vezes as coisas ficavam quentes e as brigas eram inevitáveis. Lembro de várias, mas uma vez te escondestes  de mim debaixo de uma cama e quando pulei em cima para te fazer sair dali, uma mola te feriu a cabeça, deixando uma cicatriz que nunca mais saiu. Aliás, as brigas, encrencas, confusões e discussões faziam parte do teu cotidiano. Até apanhei de uns sujeitos que não puderam te pegar e aí me bateram pra valer. Sei lá o que andastes aprontando...  Talvez tenhas falado alto demais como era do teu jeito, ou posto os caras á correr depois de alguma encrenca em que te metestes, o que era a tua especialidade.  Só sei que ser irmão de um sujeito com fama de brigão me trouxe alguns benefícios indiretos mais tarde. Se a coisa apertasse muito, o negócio era te chamar logo! Ser discreto também não era a tua praia. Os teus professores nunca tiveram dificuldade para lembrar de ti e das tuas façanhas. Lembro que mobilizastes o Colégio  Lemos Jr. quando prometestes dar um laço no professor de ginástica,  na verdade  um  tremendo chato, o que te valeu ser devidamente “expurgado” do famoso educandário. Tenho certeza que  tal acontecimento nunca saiu do imaginário e das lendas urbanas da nossa geração e ainda hoje é comentado. Sempre nos demos bem, apesar das enormes e  irreconciliáveis diferenças pessoais que tínhamos. Pra falar a verdade, divergíamos em  quase tudo, principalmente quando o assunto era política. Aí os ânimos se acirravam e parecia que aquilo ia terminar em algum sangrento duelo a mão armada no meio da rua, mas que acabava quase que sempre em churrasco. As diferenças não paravam por aí: tinhas a habilidade  para fazer e consertar  as coisas, o que sempre me faltou. Hoje em dia até que melhorei, mas continuo achando que não dá para competir. A melhor coisa á fazer quando algum problema se apresentava como insolúvel, tal como consertar um carro, construir uma caixa de som, arrumar uma torneira ou resolver alguma coisa com eletricidade,  o negócio era chamar o Paulo, mestre em chaves de fenda, serrotes, medidas e coisas afins. Era difícil competir contigo, que sabias tudo da tabuada e da matemática. Até que tentei e algumas vezes  consegui, mas achei melhor enveredar por outras ciências e lugares, onde as coisas eram diferentes e mais tranquilas. Ah, te ganhei em algumas coisas: acabei ficando com o teu violão, pois não tocavas nada.  Só o que conseguistes fazer com perfeição com o tal instrumento, foi mais barulho. Música? nada... Pra mim foi uma coisa muito séria e importante: sabia fazer uma coisa que tu não conseguias fazer muito bem e melhor.  Com o tempo, acabastes casando, separando e casando de novo...   Vieram os filhos, os meus primeiros sobrinhos e ficastes um sujeito sério, ou melhor: quase ...  É claro que não dá pra levar muito a sério um sujeito que usava um bigode como aquele, o que te valeu o  apelido de “morsa” entre os colegas do Sindicato dos Conferentes,  onde trabalhavas. Certo! Seriedade não era um  atributo que usavas com  muita freqüência e quase que com certeza, estavas correto, pois  pensando bem, a vida parece ser mesmo uma grande gozação, e  acho que conseguistes perceber bem como a coisa funcionava e assim vivestes. Passastes por todas as atribulações com que a existência nos presenteia, mas não deixastes de aproveitar também  "la perra vida”. Assim como o mundo gritou contigo, também tratastes o mundo aos gritos, pois o barulho era o teu chão e  perto de tí não havia  silêncio, principalmente depois de alguns “tragos”. O  barulho que fazias e que   me incomodava, agora  faz uma enorme  falta e parece que á qualquer momento vamos enveredar por uma discussão daquelas, ou  vais  aparecer sem avisar e fazendo todo aquele estardalhaço que era a tua característica. Com certeza, já deves andar lá por cima fazendo bagunça, sem se importar se os outros gostam ou não... Deves estar tranqüilo, com o teu trago costumeiro,  fumando o teu cigarrinho, com os teus  cachorros em volta e contando piadas bagaceiras ou  então batendo boca em altos brados com o pai, que se foi primeiro...  É claro que os dois sempre tinham razão ao mesmo tempo e jamais davam o braço á torcer e com certeza,  não vão conseguir se entender mesmo, mas isso não tem nenhuma importância. Com o tempo e com a maturidade chegando, acabamos descobrindo que os valores verdadeiros são outros. Esta tua última surpresa me deixou  quieto e sem   palavras... Confesso que levei um susto e tanto, mas os caminhos do Arquiteto são complexos e de  difícil entendimento.  Espero algum dia poder compreender melhor tudo isto, mas ainda não sei como desmanchar o brinquedo para saber como funciona...   Quem sabe daqui á pouco  a gente consiga juntar as peças... Até mais, Paulinho...  Tô com saudades...Um dia a gente se vê.
LCRivera
Enviado por LCRivera em 24/11/2007
Reeditado em 28/01/2016
Código do texto: T751409
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LCRivera
Santana do Livramento - Rio Grande do Sul - Brasil, 64 anos
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