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A MENINA DE ABAETETUBA

A MENINA DE ABAETETUBA


É difícil passar uma semana sem que um caso de violência ganhe as manchetes dos jornais aqui no Brasil, alguns deles com repercussão internacional, como este de uma menor presa por suspeita de um furto, na Cidade de Abaetetuba, no Pará e que foi posta numa cela com vários homens. O resultado de tal prisão não poderia ser mais desastroso: a menina, de 15 anos foi violentada sexualmente em troca de comida.

Com apenas 15 anos de idade, L., a menor, chegou a um indesejado momento de fama, mas a sua história e de sua família já apontavam, infelizmente, um destino sem muitas perspectivas que, possivelmente, lhe levaria à prostituição, muitos filhos, dois ou mais companheiros, violência doméstica e, claro, desemprego, além de outras mazelas que infestam o cotidiano da gente pobre brasileira.

Abaetetuba, que, ironicamente significa em tupi-guarani “lugar cheio de gente boa” já foi considerada por seus moradores como um lugar tranqüilo, pelo menos até os anos 90, segundo se relata em matéria publicada no Estado de São Paulo deste domingo, 25/11/07. Acredito que sua população deve ter muita saudade daquele tempo, pois agora sua taxa de homicídios é altíssima, tendo atingido a impressionante marca de 21 mortos por 100 mil habitantes em 2005.  A economia da cidade girava em torno dos velhos engenhos que produziam cachaça, cerca de 50, mas a construção da estrada Belém-Brasília nos anos 70 facilitou a importação da aguardente de outras regiões e a maioria dos engenhos quebrou.  Depois disto, a Cidade depositou suas esperanças nos projetos de exploração do minério de ferro e nas grandes mineradoras e, de fato, sua economia foi revigorada. As mineradoras foram responsáveis pela mudança no perfil urbano da cidade que passou a ser dividida socialmente em duas: a cidade de tábua, formada pelas palafitas das populações de baixa renda; e, a cidade de ferro, as casas dos engenheiros e empregados graduados das mineradoras.  As novas atividades atraíram gente de toda região, mas a maioria não pode ser aproveitada, seja por falta de vagas, seja por desqualificação profissional ou à falta do mínimo de escolaridade. Situada próxima às águas do Oceano Atlântico e com 72 ilhas fluviais em seu território, o município desenvolveu duas atividades econômicas que foram facilitadas por estas características geográficas: a prostituição e o narcotráfico. As águas de seus rios terminaram por colocar Abaetetuba na rota do tráfico internacional de drogas por sua proximidade com as Guianas e o Suriname e, por extensão, com a Europa. Turistas, traficantes, operários, pescadores e toda a gente que navega por seus rios, contam sempre a oferta de meninas e moças para serviços de prostituição. Às margens dos rios o comércio do corpo das garotas é feito com conhecimento de todos, dos pais às autoridades, porém são poucas as iniciativas para coibir essa mercância.

A mãe de L., a Sra. Francicléia Félix Alves, de 44 anos, que tem mais 04 filhos, chegou com migrante à região, em busca de emprego que não conseguiu por lhe faltar qualificação e estudos. Além dos filhos, Francicléia tem de cuidar da pequena Vitória, de apenas 2 anos. A mãe de Vitória, é outra menina, de 14 anos apenas. Mas não bastasse toda essa carga de miséria, a família vive num barraco com mais outras 11 pessoas. Talvez fosse por isso, que L, andasse pelas ruas praticando pequenos furtos e, quem sabe, até já oferecendo seu próprio corpo. Seu apelido: “Cartucheira”. Fico a imaginar qual o significado dele para uma menina de 15 anos. Não consigo achar comigo nenhuma resposta aceitável, mas sei que deve ser pejorativo, infamante mesmo. Este quadro social desastroso não daria nenhuma oportunidade de vida digna à menina L., e todos na cidade sabiam disto, tanto assim que muitos tinham conhecimento de sua prisão, inclusive porque a grade da carceragem era vista pelos transeuntes e, mesmo assim, ela passou 20 dias dividindo a cela com vários homens e servindo seu mirrado corpo à brutalidade deles. Com apenas 1,40 a pequena adolescente sofre, desde a tenra infância, dores de gente grande e, agora, é o centro de um escândalo  que atinge em cheio o Estado brasileiro e suas instituições.

Faltou tudo à L, assim com falta a milhares de meninas que se prostituem em todo o país e que são vítimas diárias de violência, porém no caso da menina de Abaetetuba, esta violência teve um caráter institucional, vez que patrocinada pelo próprio Estado.


Este caso revela outra ironia, é que o futuro de L., suponho, será melhor do possivelmente seria, pois receberá proteção e ajuda de órgãos governamentais e entidades privadas. Não lhe faltará, doravante, cuidado e talvez até tenha oportunidade de retomar seus estudos, espero.



Augusto N. Sampaio Angelim
25/11/07
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 25/11/2007
Reeditado em 15/03/2008
Código do texto: T752772

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Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
São Bento do Una - Pernambuco - Brasil, 55 anos
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