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Sem Stanford
Rosa Pena
 
Em 1988 apareceu uma mancha estranha em minha perna. Não tinha tomado pancada alguma, não doía, mas era feia. Parecia um chupão na canela, lugar inédito para essa façanha. Griladíssima, fui a um clínico geral, que não conseguiu dar diagnóstico. Nessa época virose e estresse ainda não estavam em voga e alguns doutores não aprenderam a dizer apenas "não sei". A segunda opção foi indicar um especialista. Dermatologista foi o recomendado.

Eu ainda vivia no tempo do doutor Boiteux, meu médico de infância, meu segundo herói (depois de meu pai). Doutor Ruyter Boiteux era um cabeção dos anos 60, comunista não de idéias, mas de ideais. Cuidava de mim, de minha mãe, do menino de rua, do meu coelho Leon Russel e de quem pedisse help. Cuidava de pneumonia a piriri. Era geral em medicina e especialista em amor ao próximo. Doutor Boiteux havia falecido no ano anterior.

Mamãe sugeriu que eu me desgrilasse, que a mancha era só angústia – estranha melancolia na panturrilha, mamy? Quanto mais eu ficava bronzeada de praia, mais escura a safada ficava, avisando-me que eu não usasse minissaia. Verão nas bocas, eu resolvi procurar um medalhão, aquele médico famoso que leva um mês de seu salário (não tem convênio) e que depois de morto vira nome de rua. Beco Doutor Medeiros, será que já há projetos? Doutor Boiteux deveria ter virado nome de Avenida.

Entrei na sala do medalhão tímida e monossilábica, bolada com a quantidade de diplomas na parede. Só de Stanford tinha um monte. Sem um sorriso receptivo, apenas com um ar antisséptico, ele me fez duas perguntas idiotas e olhou minha perna de forma ligeira. Com ar austero, mandou que eu tomasse Lexotan. Diagnóstico: ansiedade! Neste dia, fui apresentada ao primeiro tarja preta.

Agradeci e, sem querer, falei:

— Valeu, Medeiros!
Fui surpreendida por um olhar reprovador, quase indignado, por eu ter esquecido de falar Doutor.
A mancha foi sumindo, então o cara tava certo, foi minha dedução na época, logo, valeu ele ter levado um mês de meu salário de professora. Eu havia parado de caminhar na praia por conta do bode que o Lexotan dava, por conseguinte também parei de tomar meu suco de limão.

Assim que melhorei, voltei às caminhadas, e Seu Arlindo limoeiro perguntou pelo meu sumiço. Ao saber o motivo, sem ter curso em Stanford,  desvendou a charada. Limão no sol.

Há uns anos atrás, trabalhei no vestibular Cesgranrio. Fiquei na área de pedidos de revisão de prova, só revalidando o gabarito expedido pela fundação. Logo no primeiro dia apareceu um rapaz arrogante, acompanhado do avô mais convencido que ele, contestando a resposta da interpretação de um texto do Mario Prata (as respostas tinham sido fornecidas pelo próprio autor).

Reconheci o "merdalhão" na hora e deduzi que o merdinha havia herdado o jeito. Atendi-os de forma solícita até o momento em que o doutor chamou-me alto de você e afirmou que o Mario Prata estava totalmente errado. Costumo considerar que a interpretação é quase livre, na net, então, mais ainda. Por aqui a gente diz que gato preto dá azar, por pura superstição e alguém nos acusa de racismo. Num vestibular não existe essa liberdade. É marcar a opção e pronto. Tentei explicar, mas o doutor, quase gritando, partiu pra me chamar de mocinha, não por eu ser jovem. Revidei :

 — Professora Rosangela.

Olhou-me nos olhos, assustado com meu jeito autoritário e, não contente, avisou-me de que era doutor. Então lhe fiz uma pergunta básica:
— O doutor é bom. Qual é a função sintática de bom?
Ele não respondeu. Eu respondi:
— Predicativo do sujeito, pois o verbo ser é de ligação. Cada um na sua função!

Seu olhar altivo virou de ódio e o vermelho tomou conta de seu rosto. Chamou o neto e saíram batidos de raiva. Doutor Boiteux não tinha curso em Stanford, mas tinha ligação com o ser. Acho que o nome dele merecia mesmo virar alcunha de cidade, apesar de ele apreciar ser chamado só de Ruyter.

Por que me lembrei disso hoje?

Porque ando de saco cheio de dizer algo como "não gosto de empada" e quem não sabe diagnosticar nem mancha, nem predicativo, queira ver algo mais no meu dizer que não seja apenas: "não gosto de empada".

Agora, nesta crônica, os autoritários de plantão vão achar que os ofendi. Doutores! Eu não sou nada. Meu nome não merece nem ser título de uma prosa. Não fiz Stanford!







LIVRO UI!
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 23/11/2005
Reeditado em 14/06/2010
Código do texto: T75280
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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