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* Ticket Leite *

Era uma vez, um povoado de gente muito bonita e alegre. Este povoado era mantido por um rei muito bondoso, que possuía um coração grandioso.

Que não media esforços para dar de tudo a seus súditos e seus familiares. Ali, reinava a paz e todos se mantinham satisfeitos. O rei, por conseguir suprir a todos, e o povo por ter tudo de que precisavam e também o que não precisavam tanto assim.

A Paz reinava naquele lugar e até as flores pareciam sorrir, festejar... Tudo ia bem.

Ali ninguém passava fome, ninguém morava na rua, todas as crianças tinham escola e diversão. As pessoas eram bem educadas, cultas e viviam sorrindo.

Naquele lugar não havia doença, desgraça, e se alguém ficasse doente, era prontamente atendido, com médicos, remédios, o que precisassem. Ninguém ali precisava trabalhar, acordar cedo, o rei fazia absoluta questão de que todos tivessem de tudo e não admitia que alguém passasse por dificuldades, não! Nada disso.

O rei, com sua infinita bondade fazia com que nada faltasse. A felicidade fazia parte do dia a dia daquela gente bonita e por muitos outros povoados, invejada.

Numa bela noite, após uma das grandes festas populares que sempre havia ali, o rei se sentiu mal, vindo a falecer em seguida. Nada pode ser feito.

A tristeza era geral e todos naquele povoado, passaram a madrugada chorando e velando o corpo sem vida daquele que fora uma ótima pessoa.

O dia amanheceu, o sol radiante, parecia dar “Bom Dia!” com seu brilho que de tão intenso, ofuscava a visão de quem pra ele olhava.

Chegava a hora do café da manhã, a mãe zelosa foi para a fila do “Ticket Leite” pegar sua cota diária do liquido branquinho que alimentaria seus filhos pequenos.

Estranhou a falta do caminhão que pontualmente em todos aqueles anos, jamais havia faltado. Outras mães já se encontravam no lugar de sempre e as horas foram passando... O sol cada vez mais quente, e as mães então desistiram de esperar pelo caminhão do leite e foram cada uma para sua casa.

Como era de costume, na hora do almoço todos estavam no galpão do refeitório, sentados esperando que o farto almoço fosse servido, mas as cozinheiras não tinham feito nada naquele dia. Elas também não sabiam dizer o que estava acontecendo e também aguardavam instruções.

Hora de ir para a escola, as crianças sem almoço foram com suas mães buscar o material escolar para o primeiro dia de aula, mas não havia sequer um lápis para ser entregue e as crianças faltaram no primeiro dia. O que estaria acontecendo no povoado dos sonhos?

O cartão que lhes dava direito a roupas, sapatos, perfumes, a cota mensal de água e luz, gás, também, não estava funcionando.


Os dias foram passando, a fome aumentando, o sol já nem tinha o mesmo brilho de antes, o povoado dos sonhos estava perdido.

Foi então, que as pessoas começaram a perceber que com a morte do Rei, que era quem supria tudo de todos ali, morrera também a forma de sustento de todos eles.

O caminhão do leite jamais chegaria, nem o almoço seria servido, nem o cartão voltaria a funcionar, como muitos pensavam...

O Rei pensando estar ajudando, pensando estar sendo bondoso, havia acostumado todo o povoado a esperar, a ganhar, a pedir, mas nunca os ensinou como conseguir o que necessitavam por conta própria.

Nunca ninguém ali tinha se esforçado para conseguir coisa alguma, porque não precisavam, o rei dava tudo.
E agora?

A mãe zelosa, saudosa se lembrava do passado nem tão distante assim:

“ No posto de saúde me foi dado camisinha e anti-concepcional, mas eu jamais usei.

Todas as vezes em que estive grávida, tive médico e remédios de graça no posto de saúde e meu parto também foi pago pelo rei.

Todos os meses recebi minha cesta básica, e minhas contas de água e luz, o centro comunitário me ajudava a paga-las.

Meus filhos todos estiveram na mesma creche, lá eles tomavam banho, almoçavam, chegavam em casa limpinhos e felizes.

Eu recebia o leite todos os dias, assim como a alimentação das crianças e a minha, recebia até dinheiro para meus filhos irem alguns para a creche e outros para a escola.

O gás também nunca faltou, porque recebia dinheiro para isso também. Meu marido começou a freqüentar uma igreja e lá, ganhava roupas e sapatos para todos nós, mas não me lembro de ter visto rezando uma única vez.

Quando ele nos deixou, seu velório e também seu caixão, foi o rei que nos deu.

O que vou fazer agora que o rei também se foi?”

E ASSIM, A HISTÓRIA SE REPETIU EM TODAS AS FAMÍLIAS DO POVOADO, ATÉ O DIA QUE O SOL PAROU DE BRILHAR.


* * * * * * * * *


DA MESMA FORMA QUE DESTRUÍMOS A AFRICA, COM TANTAS DOAÇÕES, DINHEIRO, PROJETOS QUE DE “SOCIAIS” SÓ POSSUEM O NOME, ESTAMOS FAZENDO COM NOSSO PAÍS, ONDE AS PESSOAS ESTÃO CADA DIA MAIS SATISFEITAS EM ENGANAR, GANHAR, ROUBAR, PEDIR E NUNCA, JAMAIS APRENDER A CORRER ATRÁS DE SEUS SONHOS E VONTADES. ESTAMOS ENSINANDO O “POVOADO” DE AMANHÃ A SEREM PARASITAS DE NÓS MESMOS. POVO SEM CULTURA NÃO SABE PENSAR. ELEITOR QUE NÃO PENSA, SE VENDE POR QUALQUER MIGALHA DE SONHO. PESSOAS QUE SENTAM E ESPERAM O AMANHÃ, DE BRAÇOS CRUZADOS E BUNDA CANSADA. PESSOAS QUE AINDA ACHAM QUE O REI ESTAVA CERTO.

“NÃO DÊ O PEIXE, ENSINE A PESCAR!”

* TEXTO DE ORIGEM DESABAFO, POR NUNCA TER FICADO NA FILA DO LEITE E POR ESTAR CANSADA DE VER AS PESSOAS SE VENDENDO BARATO E BATENDO PALMAS, COMO SE FOSSEM FOCAS DE CIRCO! *



DanielaVS
Enviado por DanielaVS em 23/11/2005
Código do texto: T75295

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Sobre a autora
DanielaVS
Caraguatatuba - São Paulo - Brasil, 43 anos
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