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Pé de Coelho, Saravá, Bate na Madeira 3 Vezes.

Quando decidiu arrumar uma amante, Jorge já estava casado com Ana havia 13 anos. Talvez fossem os anos de convivência, a mania da sogra se meter na relação do casal ou até os mistérios supersticiosos do número 13, mas o fato é que ele já não aguentava mais aquela monogamia.

Jorge teve medo de ser descoberto, é verdade, mas um dia não resisitiu aos encantos daquela estagiária nova do escritório e acabou convidando-a para um almoço. Foi discreto, chegou sozinho ao restaurante onde tinha marcado o encontro e fez tudo parecer totalmente casual. Gostou tanto da brincadeira, que passou a fazer isso mais vezes. De almoços comuns, esses encontros passaram à almoços executivos, encontros nas escadarias do prédio e horas-extra.

O tempo passou e a menina começou a pressioná-lo para que eles saíssem uma noite para jantar. Ela tanto fez que, mesmo com o pé atrás, Jorge marcou um jantar despretencioso numa sexta-feira de Agosto, noite de lua cheia. Ele cuidou de todos os detalhes para que sua esposa não desconfiasse de nada. Inventou que estava metido em um projeto novo e muito trabalhoso, passou a chegar mais tarde em casa com alguma frequência e ainda contava detalhes deste misterioso serviço para ela.

Temendo ser visto por algum conhecido, Jorge escolheu uma cantina do Bixiga, dessas que não estão no circuito dos melhores restaurantes da Veja ou do Guia da Folha. Com tudo planejado, ele esperou seus colegas de escritório encerrarem o expediente e finalmente levou a estagiária para jantar.

Mas o que parecia ser uma noite dos sonhos, de uma hora para outra se transformou em um pesadelo. Ao abrir a porta da cantina, Jorge se deparou com toda a família de Ana, reunida em uma mesa daquelas imensas. Ele não teve dúvidas: deu meia volta e fechou a porta do restaurante. Foi tão rápido, que nem percebeu aquela vassoura, de bobeira atrás da porta. O homem então deixou sua amante em casa, voltou para o escritório e pediu comida chinesa. Jantou sozinho, tentando bolar uma desculpa.

Nervoso com aquela situação, Jorge esqueceu-se de todas as suas superstições e, na correria, acabou atropelando um gato preto, passou embaixo de uma escada, entrou em casa com o pé esquerdo e ainda quebrou o espelho do banheiro.

E depois daquela traição e de tanta confusão, ele não teve tempo nem de apanhar da mulher, que dormia tranquilamente àquela altura do campeonato. Antes mesmo de ligar a televisão da sala, o homem não conseguiu nem gritar ao sentir sua garganta fechar e morreu ali mesmo. Não que aquelas superstições tivessem feito algum efeito, mas definitivamente, ele não podia com comida chinesa.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 27/11/2007
Código do texto: T754610

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Ricardo Polinesio