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Diário de notícia

     O trabalho de Hofmam consiste em criar a pauta diária do noticiário televisivo.  Significa que escreve notícias aos arautos que quase sempre são mocinhas graciosas e belas ao lado de horríveis apresentadores.  Notícias do mundo deviam ser anunciadas apenas pelas mulheres. Assim reflete Hofmam e faz isso há mais de dez anos. Confessa-se cansado dos crimes de lógica recorrentes. Na maior parte das vezes a delinqüência é o resultado dos frutos podres da angustiante miséria oriunda da riqueza vazia e escravista.  Verdadeira patologia do poder das relações humanas. Como escreveu Gregório de Matos Guerra: quem tem mão de agarrar ligeiro trepa. Nasce o sangue escorrido graças à sensação de superioridade sobre a vítima numa sociedade de consumo entorpecida dos convites ao luxo e das facilidades.
      Está exausto das mortes no trânsito. O trânsito com seus quarenta milhões de carros em número crescente enfrentando estradas esburacadas que se estendem em produção decrescente provocando tremendos golpes em altíssima velocidade.  Farto das informações que afasta para divulgar a incapacidade de irmos mais longe a termos de causa e efeito.  Sabemos que estamos habitando puramente o aspecto das coisas pelos meios de comunicação e nasce em Hofmam  a vontade arrasadora de confessar a verdade além da simples plástica informativa. Segurando um cafezinho vicioso segue até a mesa do diretor.
      O novo tópico da notícia está pronto. Sabe que Doner ficará furioso, mas mesmo assim prossegue para tirar a febre do seu temperamento. Doner pergunta:
     - Escreveu sobre drogas hoje, Profeta?
Ele  chama Hofmam de Profeta como Getúlio chamava o Samuel.
     - Claro. Está uma droga o meu artigo. Fiz o pior como dizia  Antonio  Maria.   Está aqui, veja: “Drogas!" Preste atenção!  Para servir a multidão de drogados os  traficantes enfrentam a polícia. Está bem assim?
    Ele dá um murro na mesa virando a droga do café.
    - Quer ir preso? Quem está interessado em drogado? O enfoque é o dinheiro escuso, só o dinheiro limpo é que vale, não há questão de saúde nesse tema. A saúde pública não comporta essa questão, portanto ela é criminal, criminal! Uma guerra!  Compreendeu? Uma guerra contra a pobreza.  Danem-se os doentes e a multidão de necessitados de prazer fácil. Gente da rua correndo atrás de prazer fácil num sorriso tribal. Danem-se! O dinheiro desviado para tal finalidade é o que importa porque vira forçosamente material bélico.
    - Calma! Estava brincando.   Segue lendo a pauta: O espetáculo da corrupção nas esferas de alta classe. Ponto.
     A porta bate com fúria.     Nada disso entrará no ar. (No ar não há tempo para explicações, se quer aprofundar algum tema que leiam). Sobre ciência haverá enfoques rápidos. Sobre educação apenas o trivial.  A pasta de economia oferece tema farto. Como é que um país com tantos economistas produz tanta carência financeira? Enfoca os êxitos do pensamento positivo da produtividade, portanto não afetará quem está na praça chorando, nem os endividados e tampouco os falidos.  Os perdidos em meio aos detritos do salário são lentamente enfraquecidos graças ao esforço da produção. Aqueles que passam inevitavelmente esquecidos até que se tornem explosivos contra alguém bem vestido na rua deserta e sem número.
       Já na editoria de esportes Hofmam garante que haverá animação de jornalistas e entusiastas do campeonato, portanto vamos salvar a aparência da sociedade fraca de recursos com o atletismo global. É atletismo da razão prática, brinca Hofmam pelos corredores da emissora.  Haverá gols, pulos e comentários. É assim todos os dias. Aprendemos a nos sentir protegidos pelos arautos que ficam bem melhor nas moças bonitas graças às rápidas pinceladas da voz sedosa. De volta a sua sala cheia de botões Hofmam lembrou uma cena erótica. O erotismo entre tanto artificialismo é uma necessidade. Recordou. Lembrou que há um país no mundo onde as apresentadoras mostram os seios após o desabafo das questões sociais. Os seios da vida em que formamos tanta desventura e onde há tanta esperança. Os seios onde todos sugam a esperança vital. Aborrecido recordou que  ao mesmo tempo  apreciamos a violência bem  mais do que os prazeres humanos.
        Passou tudo a limpo.  É o seu trabalho revelar o noticiário. O noticiário implacável. Depois seguiu para casa em silêncio e a pé.
         

Tércio Ricardo Kneip
Enviado por Tércio Ricardo Kneip em 29/11/2007
Reeditado em 30/10/2010
Código do texto: T757553
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Sobre o autor
Tércio Ricardo Kneip
Santa Vitória do Palmar - Rio Grande do Sul - Brasil, 54 anos
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