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Fim de século

FIM DE SÉCULO


       
       Despedimo-nos do ano dois mil, há poucos dias, as lembranças sequer ainda se tornaram necessárias para nossas comparações; não são suficientes para que elaboremos uma fórmula ideal ou mesmo, uma simples média aritmética dos fatos ocorridos no transcurso do século XX. Com certeza não nos faltarão personagens ou passagens pitorescas, casos hilariantes, cenas de terror, fatos comprovados de descasos, dissoluções de instituições que no passado nos tenham orgulhado ou mesmo lágrimas suficientes, capazes de regar nossa mesa, dessa lauta refeição, preparada com o carinho e a dignidade inerente daquele que escolhemos para estrelar sobejamente e, com méritos incontestáveis nossos contos de fim de século. Nosso astro é e sempre será insubstituível pois, tenho a máxima certeza que, nenhum de nós encontrará no globo terrestre, alguém capaz de reunir as aptidões e qualidades do nosso astro escolhido.
       À luz das evidências, câmaras, ação: sob um cenário de ira, fumaça, bombas e corpos lançados em pedaços ao ar, aos nossos anfitriões, a saga do poder. Capitalismo, domínio, transgressões constitucionais, desrespeito à cidadania, imposições, fome, direitos humanos, lazer, saúde, educação, cultura, distantes, muito distantes, até quando?
       À luz das evidências, câmaras, ação: novamente nosso astro em ação, magnífico, perfeito, desempenho irreparável, completo. Novo crânio de espécie de macaco é encontrado, a teoria da evolução de Charles Darwin é contestada, novas pesquisas, outros rumos, horizontes futuros mais distantes, muito distantes, até quando?
       À luz das evidências, câmaras, ação: corpos de jovens são encontrados à beira de estradas, de ruas, em frente às discotecas, nos bares, em frente as escolas, dentro de casa, com drogas, bebidas, dinheiro, sem nada e as famílias distantes, muito distantes, até quando?
       À luz das evidências, câmaras, ação: trabalho infantil, miséria, incerteza, vergonha, desmandos, escravidão capital, do capital, financeiro, o dinheiro e o direito, o respeito, o orgulho e a fama distante, muito distante, até quando?
       À luz das evidências, câmaras, ação: somos números só números, apenas números. Investimos no futuro, de um número; na esperança de dias com números melhores; num futuro com números melhores; numa educação com números melhores; na mortalidade infantil com números melhores; numa agricultura de números melhores e numa população com números cada vez maiores, muitos números, só números, apenas números, inclusive num novo século com números maiores, distantes, muito distantes, até quando?
       À luz das evidências, câmaras, ação: e os sentidos se fazem representar; a respiração está muito difícil, pouco oxigênio muita poluição; audição instável, insegura, sons imperceptíveis ou muito acima dos limites permitidos, não definidos; a visão perdida no horizonte totalmente cinza, sem foco, um verdadeiro caleidoscópio de natureza morta; o paladar mascarado e transgredido por produtos industrias, aromatizantes, conservantes e anilinas; o tato nas solas dos pés ou nas palmas das mãos, calejados, engrossados por desgostos, desiludidos, cansados, vencidos e dos seus ideais, cada vez mais distantes, muito distantes, até quando?
       À luz das evidências, câmaras, ação: esperança em Marte, há evidências da existência de água naquele planeta, esperança de vida, quem sabe outros seres, quem sabe? Que seres? E a esperança de vida cada vez mais distante, muito distante, até quando?
       À luz das evidências, câmaras, ação: nosso ator volta à cena, inabalável, impoluto, intocável, arredio, irreversível, insensível, sanguinário, insatisfeito e à luz das evidências se repete, interminável, multiplica-se sucessivamente, insaciável até busca multiplicar-se através de clones, tentando, ao menos julga, o melhoramento ideal para sua figura, transfigurada em sua mentalidade e irremediavelmente vencida pelo seu orgulho, ambição, individualismo, egocentrismo que é próprio desse nosso ator, o insignificante homem.  O homem que está adentrando ao terceiro milênio da era cristã, o dominador dos hemisférios do equador, responsável direto pelas paisagens  futurísticas de nossas matas, pela diversidade das espécies representantes de nossa fauna, administrador de nossas riquezas naturais, formador de nossas instituições sociais e, educador de nossas crianças. O que nos reserva o futuro diante dessa nuvem só comparável, à de gafanhotos em nossas atuais lavouras? Sim, essa é a figura do homem do futuro, aquele que tem dois olhos, fica frente a frente com um espelho e não se enxerga. Sua mente estampa-lhe como forte, bonito, sempre jovem, irresistível e dominador, o dono da verdade, da única verdade, o mais forte, invencível e, pasmem, julga-se eterno. Com toda a liberdade de pensar que Deus lhe deu, não consegue satisfazer-se ao saciar sua fome, sua sede, sua necessidade de companheira, de amor, de carinho, de reprodução, de bens materiais. Investe vorazmente sobre os direitos de seus parceiros de geração, sem hesitar por um só momento em transgredir leis, normas e preceitos de uma sociedade sadia. Com suas fortes e longas pernas é capaz de percorrer grandes distâncias, suficientes para obter os recursos necessários para sua sobrevivência e de sua família, mas não lhe basta, é preciso ser o mais rápido para chegar primeiro, conseguir o que há de melhor mesmo que, para tal, seja necessário eliminar concorrentes investidos do mesmo direito e responsabilidade que lhe compete, não consegue apenas compartilhar, é preciso dominar, impor-se. Seus braços igualmente longos, terminam por um par de mãos firmes, fortes, capaz de vencer muitos obstáculos, superar muitas barreiras, destruir óbices casuais, pegar coisas interminavelmente, mesmo que não sejam suas por direito ou melhor, sejam até de seus parceiros de geração, importante é ter, ter mais, seja lá o que for, é preciso possuir, possuir e ser possuído pela saga infinita e demoníaca do capital, do capital financeiro , dominar, impor, escravizar, seja lá quem for. E no peito, que frente ao espelho parece-lhe o maior, mais bem formado, super atlético, uma caixa respeitável onde para si guarda um enorme coração e, que coração! Apenas palpita, normalmente acelerado porque não pode perder tempo, tem que ser o primeiro, conseguir o melhor e acumular a maior parte entre todos os seus competidores de geração. Precisa ser o dominador, o administrador, o líder inconteste através de seu capital, o capital financeiro. Coração insatisfeito e que jamais irá conhecer o amor, a paz, a satisfação de ser, crescer, participar, dividir-se, doar-se, respeitar-se. Um coração cheio de vigor para que, mais forte, sejam as dores da insatisfação, da angústia, da solidão, quando na verdade deveria estar vazio, para poder receber o respeito, o amor, a gratidão, a paz e a fé. Esse é o homem que investe sobre o terceiro milênio, o nosso mais puro e eclético exemplar do fim de século. Idêntico aos homens das cavernas, onde a força física imperava;  o verdadeiro, sócia do antônimo de Robin  Hood, valorizando e incorporando-se à classe dominadora dos capitalistas;  o avesso da imagem santificada de exemplos das comunidades humanas onde o amor, a doação, a ajuda e o respeito, são a bem da verdade, casos isolados, deixou suas irreversíveis cicatrizes expostas, como exemplo para esse homem, que não soube utilizá-los. Esses serão os personagens de nossas futuras histórias de fins de séculos, somos nós, sim nós mesmos. E isso basta, vamos apenas falar, escrever, reclamar? Nos próximos fins séculos nossos filhos, netos e bisnetos, não mais poderão ter suas imagens refletidas no espelho, como as lamentáveis imagens nossas do presente. Vamos mudar nossa trajetória, nossas ambições, nossos anseios, para não sucumbirmos inutilmente ante a vontade de Deus, na hora da despedida. Nossos corpos se decomporão, porém os resultados de nossas ações permanecerão por muitas gerações instigando filosofias, direcionando erroneamente jovens inexperientes, abrindo caminhos para o mal, para as trevas, desnecessariamente porque, quem nos ilumina é a luz do sol e, seu calor acalenta-nos o coração para que possamos um dia, quem sabe, verdadeiramente amar, não os nossos filhos, mas os filhos dos outros para que possamos deixa-los amar ao nosso próprio filho. Adeus para sempre, indesejável homem do fim do século XX.
   
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 24/11/2005
Código do texto: T75769

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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