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Sem cair do salto alto

          Reuniram as duas famílias no restaurante para celebrar a decisão do casamento para o próximo ano. Penélope, filha única, convidou os pais. Ulisses trouxe os pais, o irmão e a nova namorada dele. A idéia da união foi acolhida com alegria - as famílias se davam bem e os dois já namoravam há quase cinco anos. É certo que nos últimos meses andaram meio estremecidos, mas o importante é que se acertaram. Ulisses, 30 anos, engenheiro, bonitão, divertido, conquistador irresistível – motivo das rupturas de namoro - e Penélope, um pouco mais jovem, advogada, sensata, paciente,  bonita, astuta.

            No final do jantar, quando serviam a sobremesa, Ulisses, para não perder o costume, resolveu tentar a sorte com a nova namorada do irmão sentada à sua frente. Era impressão dele ou ela lhe havia lançado olhares lânguidos durante todo o jantar? Discretamente, ele descalçou um dos sapatos e começou a deslizar maliciosamente o pé sobre os pés da moça. Com naturalidade, a moça entrou no jogo e permitiu a ousadia do futuro cunhado.

           Tantos anos de convivência haviam proporcionado a Penélope uma espécie de sexto sentido quanto às indiscrições do namorado. O brilho no olhar, a cara de sonso, a ligeira tensão nos cantos da boca e o riso nervoso eram sinais inequívocos. Ulisses aprontava alguma e só podia ser com a loura namorada do Beto. Por cima da mesa tudo corria inocentemente : a ação só poderia estar ocorrendo por baixo dos panos – ou da mesa -, pensou ela.

             Mantendo o sorriso nos lábios, Penélope começou a tatear o carpete em busca de alguma pista. Topou com um sapato sem dono, perdido, junto ao pé da cadeira de Ulisses. Sem ninguém perceber, ela puxou o sapato, escondeu-o debaixo do casaco, pediu licença para ir ao banheiro retocar a maquiagem.

             Largou o sapato no lixo do banheiro e voltou à mesa. Terminado o café, Ulisses tateou em vão pelo sapato. Olhar embaixo da mesa seria assinar a confissão. Tentou ganhar tempo, pediu um segundo café, procurou novamente e nada. Pálido, olhava para Penélope, para a loura, para as outras pessoas da mesa. Todos com cara de paisagem,  tudo parecia normal.

              Por fim, ele desistiu.  Pediu a conta, despediu-se de todos e saiu, sapato sim, sapato não, de braço dado com Penélope, como se nada tivesse acontecido. Apenas o manobrista notou aquele rapaz tão bem apessoado, chafurdando um pé descalço na poça dágua.

              Todos estranharam quando Penélope encerrou o namoro por e-mail dois dias depois. Logo ela, sempre tão educada, cometer a indelicadeza de romper o compromisso por meio eletrônico e sem qualquer justificativa... No passado ela fora tão paciente,  relevara tantos namoricos do rapaz. Logo agora que eles tinham se acertado, Ulisses tinha prometido criar juízo e resistir às tentações da carne...

              Ulisses não estranhou. Ele entendeu. E se arrependeu muito. Até hoje, anos passados, ele confessa aos amigos que sente um baita arrependimento... Sempre que vai comprar sapatos, sente um aperto no coração de saudade daquele confortável par de fabulosos Louis Vuitton perdidos tão inutilmente.
Maria Paula Alvim
Enviado por Maria Paula Alvim em 29/11/2007
Reeditado em 22/04/2008
Código do texto: T758176

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Sobre a autora
Maria Paula Alvim
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Maria Paula Alvim