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Paineira

Já estava voltando para casa quando me deparei com a enorme paineira plantada naquele pátio há décadas. Parei diante dela. Meus pés fincaram o chão tal qual as raízes da soberana árvore. Senti seu olhar pairando sobre mim e nesse momento não pude continuar. Fiquei ali, por um longo tempo admirando-a em sua altivez.

Engraçado como temos o poder de passar diante de algo tão grandioso como uma paineira e não olharmos de fato. Às vezes lhe lançava um singelo olhar, mas só às vezes... Mas naquele final de tarde, sem saber ao certo o que acontecia, parei diante dela com os olhos presos aos seus. Não sei se paineiras têm olhos, mas aquela, naquele momento em especial, tinha sim e me olhava com uma força incrível.

Havia diante dela um banco e me sentei ali. Parada de boca aberta a olhar tamanha grandeza, me vi absorvida por um universo de conhecimento e sabedoria adquirida através dos tempos, desde a origem da vida. Senti minha alma ligada a sua e respirei do ar que alimenta. Nos tornávamos um ser só em todo o universo e eu em extremo gozo, apenas sentindo todo aquele poder. Não percebia mais meu mundo. Meus sentidos enlouqueciam na ausência de mim mesma...

Naquele momento eu era a paineira e ela era o mundo onde a vida renascia. Continuei ali olhando para ela e sentindo o que me oferecia. Pude então perceber que o mundo fala, conversa com a gente o tempo todo, que o silencio fala mais que qualquer palavra e que somos feitos de amor. Portanto, somos amor em nossas essências.

Naquele final de tarde senti ter ganhado a vida. Vi que vida e morte são estágios pelos quais todos nós passaremos, caminho pelo qual retornaremos à origem do que somos. Porque a vida é muito mais que apenas vida. É sentir e colocar-se como parte do todo se inserindo no contexto geral da criação. É ser semente e germinar alimentando o amor que vive nos corações de todos os seres, mesmo aqueles que não o aceitam. É saber-se canal por onde essa vida, vestida de amor, possa passar para chegar ao coração do mundo. Não basta viver, temos que experimentar da vida tudo aquilo que  sempre nos traz e sorrir nossos risos,  chorar nossas tristezas na plenitude com a qual se apresenta.

Saí de lá andando calmamente e refletindo sobre tudo que vi, ouvi, senti e ainda sentia. Notei que havia ganhado muito mais que jamais imaginei ganhar. E em meio a meus pensamentos, voltei-me com a finalidade de lhe ver mais uma vez. Mas ela já não estava mais no imenso pátio. No seu lugar, apenas uma paineira, plantada há décadas, repousava suas raízes sob o solo que meus pés pisavam...

***

http://acrampin.blog.uol.com.br
Aisha
Enviado por Aisha em 24/11/2005
Código do texto: T75982
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Sobre a autora
Aisha
Jundiaí - São Paulo - Brasil, 50 anos
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