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Delicadeza, educação ou...hipocrizia?

DELICADEZA, EDUCAÇÃO OU. . . HIPOCRISIA?

A hipocrisia é que nos salva. Se não fosse pela hipocrisia este mundo já teria explodido há muito tempo. Porque a hipocrisia é o sinónimo de política. Quando vemos figurões politicos discursando, mentalmente o taxamos: "Ah, hipócrita!" Mas não é de política que vou falar — o rádio, a TV e os jornais andam transbordando o assunto pêlos ladrões. . . Vou falar da nossa hipocrisia, ou melhor, como seria o nosso dia-a-dia sem a nossa hipocrisia.

A começar pelo nosso "Bom dia! Como vai você? Dormiu bem? — Eu? Estou ótima! Que belo dia, não?" A coisa sairia assim: "Bom dia? Seis horas da madrugada, eu com os olhos pregados de sono, com o corpo moído, tendo que enfrentar o batente de sempre e você me vem com esse "Bom dia?”

Logo depois eu me sento à mesa e a empregada me diz: "O ovo já está quente, posso servir?" Ao descascar a sua pontinha, eu perco o sorriso e berro: "Mas que droga! Todo dia é a mesma coisa! Você quer que eu engula esta porcaria com baba e tudo? Oh, céus, quando é que você vai aprender a contar sessenta segundos para deixar um ovo no ponto?" — e zás, atiro longe aquela meleqüência.

Daí à pouco o telefone toca; é a Ambrosina me convidando para o aniversário do netinho e eu que leve os meus seis porque as amigas levarão os delas. Em vez de agradecer encantada: "Aniversário do netinho? Mas que beleza! 6 aninhos! Está ficando um homenzinho! Ah, sim, festinha simples com bolinho, velinhas, chapeuzinhos, bexigas coloridas, apitos, chocalhos e réco-récos? Vai ser um sucesso!!!" — eu respondo: "O que? Juntar as minhas feras com as feras das amigas e você chama isto de "festinha"? Tá doida? Já pensou, nós as velharias, de caras pintadas pra esconder os estragos, no meio de uma balbúrdia, de correrias e gritarias, apitos estridentes, matracas e berrando umas com as outras, sacolejando  netos e xingando as empregadas? Tenha a santa paciência. .."

Quando o marido chega para o almoço e vem de cabelo cortado, rente à cabeça, eu abro os braços e digo: "Que amor! Cortou o cabelo justo do modo que eu "Não" gosto!'

Mais tarde na cidade, eu encontro com uma conhecida que não vejo há anos. Dou-lhe os costumeiros dois beijinhos e lhe digo: "Meu Deus, como você envelheceu! Quase não a reconheci com esses cabelos brancos!" Ela me responde: "Como você está magra! Foi o diabetes, foi? Que barbaridade! Sua cara é só pregas! Ainda bem que o vestido esconde os ossos, não? Adeus, querida, espero não vê-la nunca mais."

No cabeleireiro ele me pergunta: "O que quer que eu faça com estes fiapos?" (eu ia escrever “falripas”, mas o termo é muito velho, lá dos meus “bons tempos”...).  Eu digo: "Um milagre!" Ele retruca: "Sou santo por acaso?" Eu remôo: "Vá tratando de cumprir a sua obrigação; quem mandou ser cabeleireiro? E olha, calado, que de fofocas estou até aqui — e risco o pescoço.

De volta à casa o marido exclama "Lá vem ela com aquele capacete de astronauta!" Daí eu digo. . . Não, digo mais nada!

Graças a Deus somos todos hipócritas
Christina Cabral
Enviado por Christina Cabral em 01/12/2007
Código do texto: T760381
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Sobre a autora
Christina Cabral
Aracaju - Sergipe - Brasil, 88 anos
59 textos (5769 leituras)
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Christina Cabral