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Memórias de uma cabeleireira - Dois

Se você já leu a crônica anterior , com o mesmo título, não vai ser necessário apresentar esta personagem. Mas por vias das dúvidas vou descrevê-la, para os que ainda não a conhecem.
Seu nome é Jussara, cliente maravilhosa, dotada de muita sensibilidade e meiguice, sofreu um pequeno acidente, onde teve a retina deslocada, ficando assim cega.
Bom, no auge de um movimento de sábado, estava eu atucanada, completamente pirada com o barulho, o cheiro e a falta de espaço na estética onde trabalhava.
Quatro secadores ligados soltando vento quente e barulhos ensurdecedores. As clientes e todos os outros profissionais aos berros a fim de serem ouvidos.
Estética que se preze sempre tem bicha e som a todo volume, de preferência com uma batida  progressiva! Pra quem não conhece é aquele som em que a batida vai deixando a pessoa agitada e ensandecida!!  Típica de festas raives, estas que estão super em moda ,onde os desavisados e metidos a ” eu sou o bom” ,tomam umas balinhas azuis e depois morrem de taquicardia!
Ótimo eu adoro este tipo de som, mas quando estou em uma festa bebendo minha catuaba e dançando, não debruçada sobre um lavatório ou fazendo a vigésima escova do dia.
Quanto a bicha ? Adoro elas!!! Afinal, treze anos de convivência me fizeram conhecer todas as suas facetas e como boa geminiana que sou, gosto de tudo um pouco, e com pessoas alegres e astral não ia ser diferente! Hoje cinqüenta por cento de meus amigos são gays.
Bom, a Jussara é minha cliente antiga, confia cegamente em mim. Me perdoem o trocadilho...
Agora, eu já sei que tenho que conduzi-la pelo braço, aproxima-la da cadeira até ela senti-la através do tato, colocar o cafezinho com delicadeza bem sobre a sua mão, não enchendo em hipótese alguma ate lá em cima, com o líquido preto e escaldante..
É serio! Já fiz tudo isso com a coitada, já larguei ela no meio do salão a procurar tateando a cadeira que eu havia lhe indicado, já enchi até as barbelas o cafezinho dela fazendo com que ela se queimasse... É eu sou um desastre!! Completo desastre! Porque  ela ficou comigo tanto tempo?? Não sei explicar!!
Já cometi a barbárie de finalizar um penteado supremo em seus cabelos castanhos, e perguntar se ela estava se achando linda!! E note: Colocando o espelhinho atrás para ela ver por todos os ângulos!!!
Pode ser o barulho, a agitação, sei lá, mas eu ficava baratinada, não sei como nunca errei a mão e  graças a deus todas as cores que apliquei ficaram exatamente como a cliente e eu desejávamos.
Quase sempre alguém da recepção levava Jussara ate em casa. Já havia escutado comentários de onde era seu apartamento.
 Era bem próximo ao salão na rua do lado.
Neste dia eu tinha um tempo de pausa em uma química que estava aplicando, então decidi eu mesma leva-la, precisava desopilar sossegar um pouco, o ambiente estava me sufocando.
Entusiasmada segurei o braço dela e praticamente sai arrastando a pobre! Ia ao caminho narrando tudo! Mas tudo mesmo, mais ou menos assim:
-Agora tem um degrau, vamos passar para a calçada, tem uma folha, e bla bla bla...
Num determinado momento ela disse:
-Querida, basta deixar que eu apóie minha mão sobre o seu braço e eu vou estar te acompanhando.
Puxa!! Acontece que eu estava agarrada com tanta forca no braço dela, com medo de perdê-la pelo caminho, que ela já estava ficando com um hematoma!!
Quando chegamos em frente ao prédio que eu supunha ser o dela, continuei bem sem noção com a narração:
-Chegamos!! Tem um degrau bem largo.
Ela parou subitamente. Disse
- Degrau? No meu prédio não tem degrau... Só no interior, no hall, nós já entramos??
-Não. - respondi. - Ainda não, a senhora tem certeza?
-Sim! Que cor é o prédio?
-Azul . -respondi
-O meu é amarelo, quatro andares, orquídeas azuis na frente...
Definitivamente não tinha orquídeas, o prédio era azul e tinha oito andares!
-A senhora tem certeza?
O resto você já sabe! Eu estava entregando o pacote no prédio errado. Depois de alguns minutos e muitas confusões, de minha parte é claro, ao tentar entender conseguimos chegar ao prédio certo!



Ps  Jussara cliente muito querida, esta fazendo computação para cegos, em breve vai poder ler minhas crônicas...

Simone Mottola
Enviado por Simone Mottola em 03/12/2007
Reeditado em 03/12/2007
Código do texto: T763178

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Sobre a autora
Simone Mottola
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
193 textos (21023 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/10/17 09:54)
Simone Mottola