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Deus lhe pague

       "Desculpe atrapalhar a viagem de vocês..." Assim uma senhora farta em banhas começava o seu pedido suplicante por uma ajuda financeira. "Hoje de manhã eu não tinha nem dinheiro pra comprar pão..." E dessa maneira continuava seu apelo que surtia efeito em poucos que estavam no vagão do metrô de São Paulo naquela manhã de sábado. Talvez os passageiros cedessem não ao apelo da pobre coitada, mas ao que ela carregava à tira colo: seu filho, o qual não deixava a desejar no tocante ao peso da mãe. O que fora adquirido por ambos, certamente, graças à má alimentação.

        Mas não quero tratar do peso da mãe, talvez do do filho, se me convier. O que mais me interessa nessa cena, infelizmente comum no dia-a-dia dos grandes centros, é a figura passiva do filho que aparentava não mais que dez anos de idade. Este, a todo instante,  repetia o chavão da mãe: "Deus lhe pague". Por alguns instantes, antes do trem parar na estação seguinte para eles mudarem de vagão, o garoto, cansado de carregar todos aqueles quilos, deu-se ao luxo de se sentar em uma poltrona vazia e ficou a olhar as outras crianças que estavam acompanhadas de seus pais e mães, todos no seu peso ideal.

       Será que o Deus que ele estava proferindo insistentemente era o mesmo que os da sua idade conheciam? Mas, espera aí, ele nunca vira esse Deus de que tanto falava, embora a mãe, cheia de fé, dizia que Ele era bom e não desamparava os Seus. Não duvidara da sua mãe até aquele instante.

      O que mais lhe intrigava nisso tudo não era conhecer ou não tal Deus, e sim entender por que todas aquelas crianças estavam bem vestidas, comendo doces, algumas embalando brinquedos diferentes, e ele estava ali, com sua culpada de tê-lo trazido a esse mundo miserável, tentando conseguir algum dinheiro para, quem sabe, poder comprar apenas o pão da manhã seguinte.

       Para ele não havia Deus capaz de apagar aquela linda cena de uma família completa (não sabia quem era seu pai) indo passear naquela manhã encantadora de verão. Enquanto o pobre coitado mendigava, melhor, sua mãe o usava para mendigar alguns reais. Então, deixou-se entristecer bruscamente.

      Percebia certa indignação no olhar das pessoas. Alguns até olhavam para a mulher com uma raiva comedida. Ele pensara por que, ao nascer, não fora lançado em alguma lagoa ou largado em algum cemitério de periferia, como muitas mães têm feito com suas crias, assim poderia ter sido encaminhado para um abrgio e com sorte ter sido adotado por uma família rica que não o deixaria trabalhar, mas que o levaria para uma escola de alto padrão.

      O trem parou, a necessidade de arrecadar fundos familiares de subsistência os obrigava a deixar o vagão e pular rapidamente para o seguinte, sem deixar vestígios aos seguranças da estação. Seus devaneios provavelmente não teriam tempo de voltar no pequeno intervalo de descanso seguinte, pois poderia não haver uma poltrona pra ele se sentar. Só de uma coisa ele tinha certeza: continuaria repetindo sem ter noção o "Deus lhe pague".


José Augusto G. de Almeida
José Augusto
Enviado por José Augusto em 04/12/2007
Reeditado em 18/06/2008
Código do texto: T764401
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Sobre o autor
José Augusto
São Paulo - São Paulo - Brasil, 43 anos
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