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O Corpo de bombeiros e eu

 

 

             Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas não acredito. Coisas comigo acontecem aos pares sim. Ou aos ímpares, mas nunca uma vez só. Lembro-me de um mês de fevereiro, 28 dias, em que consegui cair trinta vezes. Todos os dias do mês. No último, caí três vezes.Contar as histórias de meus tombos poderia ser até interessante, se eu me lembrasse de todos. Ainda bem que costumo esquecer quase todas as coisas desagradáveis que me acontecem.Mas alguns são inesquecíveis. Um dia por certo tentarei registra-los. Mas não é sobre isso que quero escrever hoje.  Nem é sobre a história dos mata-burros. Não bastando ser burra uma vez, fui duas. Posso não ter morrido de morte fatal, mas com certeza quase morri de vergonha. Consegui sair fora do mata-burro e cair no buraco. Não me perguntem como. O guincho levou o carro para a oficina, fiquei dois meses sem ele. Quando peguei o carro de volta,uma semana depois, tornei a repetir o estrago. No mesmo mata-burro. Fiquei tão injuriada que voltei a pé para casa e nem mesmo chamei o guincho.Largueio carro lá.  Meu irmão Ronaldo providenciou tudo, chamar o guincho e acabar com o mata-burro. Vendi o carro ainda destroçado e comprei outro. Só tive um consolo – o mata-burro foi aterrado para minha proteção. Não foi ele quem acabou comigo, fui eu quem acabei com ele. Agora vem o caso do Corpo de Bombeiros, que é realmente sobre o que quero escrever.

 

            Ocasionalmente, algumas coisas entram em minha cabeça e não saem. Alguns dizem que é premonição. Outros, que é obsessão. Eu acho que é uma praga. Aconteceu que durante um bom tempo, logo que eu entrava no carro e começava a dirigir, um flash passava por minha mente mentecapta. Rápido. Eu balançava a cabeça e afastava aquele pensamento: um carro vai bater em mim, do lado da minha porta. Eu redobrava a atenção e dirigia com todo cuidado. De repente, lá vinha ele de novo, o perturbador de mente. Bem,...um dia aconteceu. Passei por uma rua tranqüila, em um bairro tranqüilo e de repente lá estava ele, o pensamento. Puxa vida, vai ser agora, pensei: e foi. Eu entrei em uma preferencial sem parar, eu vi a kombi vindo em minha direção, fechei os olhos e ...seja o que Deus quiser.E Deus quis que a minha lerdeza fosse atendida. A rua vazia das gentes ocupadas com seus afazeres se encheu em um minuto, chamadas que foram  pelo estrondo. Quando abri os olhos, lá estavam eles, dezenas, em volta de meu carro. Minha primeira preocupação foi com o motorista da kombi que estava em pé frente a minha janela, simplesmente apavorado. Eu disse: moço. Fique calmo, eu não te matei, nem você me matou. Ele dizia para todos que não tivera culpa, nem tinha seguro, e eu clamava: calma, moço, eu tenho seguro, chame a polícia para um boletim de ocorrência, veja eu estou bem, já vou sair do carro. Foi aí que a confusão começou: -- uns diziam: de jeito nenhum, você vai ficar ai até o Corpo de Bombeiros chegar. Outros falavam, mas que bobagem, saia logo daí, o carro pode explodir. E nesse sai não sai eu fiquei um tempão. Ameaçava sair aí alguém gritava:não, não saia! Eu relaxava o corpo e não saía.E nesse sai não sai o tempo foi passando. Até que me enfezei (eu sou mineira, custo a me enfezar mas quando me enfezo, sai da frente!) e dei um solavanco no corpo e abri a porta para sair. Não consegui.A porta estava emperrada. Eu estava presa. De qualquer forma o Corpo de Bombeiros já tinha sido chamado e chegava com a sirene ligada. E aí se aproximaram de mim e riram: ora, é a Dona Maria Olímpia, fique calma, que nós já vamos tirá-la daí. Tinham sido meus alunos e eu, certa de que tinha sido uma boa professora para eles, entreguei para Deus. Não foi fácil, os vidros da Kombi tinham sido lançados dentro de meu carro e havia caquinhos para todos os lados. O caso, é que depois de uma operação delicada,em que eles me passaram do banco do carro para os braços deles e dali para a maca,operação esta,  apreciada por todos os moradores do bairro e por membros de minha família que a esta hora já haviam chegado, eu fui colocada carro  que partiu a toda velocidade, com a serene ligada, rumo ao hospital onde me deixaram em observação. E foi então que, poucos anos depois, em 2005, o raio tornou a cair no mesmo lugar.

 

             O cenário é a rua Santana, do lado direito de quem sobe, a minha fábrica de pães, onde vendemos também outras coisas. Do lado esquerdo, quase em frente, a Casa da Cultura, onde trabalho. Minha equipe e eu fazíamos alguma coisa que eu não me lembro qual era. De repente, sufocada pelo calor, resolvi sair. para buscar um refrigerante para nós. Ninguém notou a minha saída, às vezes faço isso, sair sem avisar. Coloquei o pé na calçada, percebi a rua vazia, embora normalmente seja muito movimentada. Só uma pessoa, descia a rua, ninguém na porta da Padaria. De repente, eu estava no chão. Estatelada. Não me perguntem como. Eu não tinha sentido mal, nem tinha escorregado. Simplesmente caí.Ninguém viu.Nem eu. Tentei levantar e não consegui.  Gritei para a moça que descia a rua: ei, me ajude aqui. Ela olhou e custou a me achar. Afinal eu não estava ao nível dos olhos dela. Correu para a Padaria e eu gritei: não, venha cá me ajudar a levantar. E eis que a rua vazia estava cheia de novo. Saiu gente de todo lugar. E a história começou a se repetir. Levanta, não levanta. Traz um travesseiro para ela descansar a cabeça.Não, gritava outro, isto é perigoso. Chama a ambulância, a ambulância não, o carro de bombeiros e ninguém chegava a um acordo sobre nada e absolutamente não me deixavam decidir. E os carros passaram na rua e diminuíam a velocidade para ver o que estava acontecendo. O dono do jornal em frente atravessou a rua, o carro da TV passou ao largo, todos os lojistas saíram à porta. Minha sobrinha e uma das moças que trabalham comigo se postaram lado a lado segurando a minha mão,fazendo carinhos, pedindo calma, e eu só querendo levantar...Do segundo andar as pessoas acenavam para mim. Uma velha maluca começou a fazer orações em voz alta pedindo a Deus que acolhesse minha alma, Bem, foi aí que eu fechei os olhos e pensei. Se virem. Deixa o circo funcionar. Fechei os olhos e só abri no hospital. Mais uma vez o Corpo de Bombeiros se dava mal comigo. Em uma operação dificílima (caí junto ao poste )e demorada eles me colocaram na maca e daí no carro e me levaram para o hospital. Com a sirene ligada. E lá  mais uma vez me deixaram em observação. Até que me mandaram para casa e eu decidi que nunca mais cairia. Tenho conseguido cumprir a promessa. Até hoje não caí mais...mas, até quando?
Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 07/12/2007
Reeditado em 07/12/2007
Código do texto: T768030

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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