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Os Medos de Ulisses

Medo de alguma coisa, todo mundo tem. Mas com ele, era diferente. O pequeno Ulisses tinha medo até de formiga. Era só ver um pontinho preto se mexendo no chão, que o menino já corria para a saia da mãe. E se esse pontinho fosse um pontão, então a família já podia preparar o ouvido, porque o berreiro de Ulisses estava garantido.

Com o passar do tempo, claro, o garoto cresceu. Mas o medo não diminuiu. Pelo contrário, só aumentou. No colégio ele era zuado pelos amiguinhos, entre outras coisas, porque tinha medo de sentar no fundo da sala ou porque morria de medo de ficar em último na fila da cantina. Coisas de criança, pensava o pai. Quando ele crescer, todo esse medo passa, dizia a mãe. Isso é coisa do Demo, gritava a avó.

O negócio ainda piorou para Ulisses quando ele adquiriu o costume de mijar nas calças em situações de pavor. Foi aí que, aos 15 anos de idade, o menino passou a usar fraldas. E para quem já era o centro das gozações no colégio, aquilo foi a gota d’água.

Somente ao abandonar a escola para ter aulas com um professor particular, em casa, é que ele pôde finalmente dar atenção aos estudos. E foi aí que Ulisses aprendeu a história de outro Ulisses, um dos mais ardilosos guerreiros de toda a epopéia grega em Tróia.

Mas aquilo que poderia dar forças para o garoto superar todos os seus medos, fez efeito contrário naquela cabeça assustada e Ulisses passou a ter medo inclusive de sair de casa. Ele acreditava, vejam só, que seus inimigos históricos fictícios estariam armando uma tocaia para matá-lo.

Os pais já não sabiam o que fazer quando, aos 20 anos de idade, o problemático garoto já não saia mais de casa. Foi convencido de que ninguém estava planejando a sua morte, é verdade, mas o problema agora era outro. Ulisses tinha medo de carros, cachorros, pessoas e até árvores.

Ulisses passou a viver isolado dentro de seu próprio quarto. Aquele era o seu mundo particular. Visitas, só do psicólogo. No começo, o garoto até assistia televisão, alugava DVDs pelo telefone e abria a porta do quarto para receber comida, mas com o passar do tempo, passou a ter medo de ligar a TV, de falar com estranhos e até de abrir a porta. Comida agora, só por baixo da porta.

Àquela altura do campeonato, ninguém mais aguentava aquilo. A mãe estava cansada de fazer tudo pelo filho, a avó, cansada de rezar pela melhora do neto e o pai, cansado de gastar os tubos com psicólogos incompetentes. Nem o próprio Ulisses aguentava mais.

Foi aí que um dia, num surto de ousadia, Ulisses levantou da cama, abriu a porta do quarto e foi até o armário de seu pai. Lá encontrou uma pistola automática e, com medo de ser descoberto, voltou correndo para o seu quarto. Ulisses tinha percebido que na verdade, o que ele tinha mais medo, era de viver. O garoto então não teve dúvidas: juntou toda a coragem que estava escondida em algum lugar do seu corpo e deu fim àquela vida maldita.

Ao escutar tamanho estrondo vindo do quarto do filho, a mãe prontamente se pôs a chorar. A avó, mesmo sabendo que aquele sofrimento havia acabado, também chorou. Já o pai, apenas pensou secretamente que finalmente teria dinheiro para que o projeto de seu escritório em casa pudesse sair do papel.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 07/12/2007
Código do texto: T768827

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Ricardo Polinesio