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OS AMIGOS QUE ME PERDOEM, MAS ODEIO FUNK!

 

    Eram exatamente seis horas da tarde. Fim de expediente de uma sexta-feira difícil, corrida e calorenta. Iria para casa de ônibus com ar-condicionado, relaxaria numa poltrona super confortavel onde poderia cochilar até o ponto final .

   Chegando em casa tomaria um belo banho, comeria alguma coisa bem rápido porque já tinha um programa para esta noite. Só nesta noite não. Hoje, aniversário da minha prima e amanhã, casamentão da filha do meu chefe.

    Consegui uma poltrona próxima a janela, pois assim, enquanto o sono não chegasse, daria uma olhada na paisagem, particularmente nas enormes filas que se formavam na calçada ao lado.

    O ônibus partiu suavemente e acredito que comecei a cochilar um pouco antes. Entretanto, quando só tínhamos começado a viagem, fui despertado do meu inicio de repouso por um barulho ensurdecedor, como se fosse um bate-estacas ou um martelo gigantesco batendo na minha cabeça.

    O barulho tinha um certo ritmo e prestando melhor a atenção, pude perceber que o ruído, o trovão, aquela coisa horrorosa saía dos alto-falantes. Depois de vários minutos só naquela batida simplesmente pavorosa , sem nenhuma lógica ou algo parecido com racionalidade, uma mulher (faço absoluta questão de nem saber o nome) começou a emitir uns sons, uivos, guinchos ou barulho de serra elétrica em que misturava rima (sabem essas rimas sem pé nem cabeça ?), com promessas de amor fácil, um ou outro palavrão e inúmeras vezes repetindo a palavra “pobrema”.

    Vejam bem o drama, o clima, o suplicio: sexta feira, confortavel poltrona de um ônibus com ar-condicionado, com sono e querendo chegar logo a minha casa para tomar banho, fazer um lanche e ir a uma festa, um jovem ligeiramente acima do peso sentado ao meu lado (chegava a ocupar parte da minha poltrona), balançando-se e acompanhando a letra daquela “coisa” que saía dos alto-falantes e que alguém que certamente não tinha muito o que fazer batizou de funk. Funk! O que é isso ?

    Alguém pode me explicar se é ruído (música certamente não é), barulho de serra elétrica com bate-estacas (quem inventou isso, queria se vingar de alguém) ou manifestação pública e desimpedida para repetir o tal “pobrema” mil e uma vezes ?

    Com aquele barulho, o sujeito ao meu lado dançando sentado e acompanhando a cantora (sinceramente, tenho dúvidas se era uma mulher ou uma garça cantando) a viagem durou o dobro do tempo, mas finalmente chegamos e fiquei livre do bate-estacas, da garça e do dançarino desengonçado. Nada como um bom banho e um gostoso lanche para relaxar!

    Naquela noite estaria estreando uma camisa nova, tomaria umas cervejinhas, comeria uns salgadinhos (talvez até, de surpresa teríamos um churrasquinho), colocaria as conversas e as fofocas em dia e pronto, mais uma noite agradável na contabilidade dos meus melhores momentos. Só que, logo após a minha chegada e depois de poucos instantes de paz e tranquilidade, ouvi novamente o barulho do bate-estacas e das marteladas, e em seguida, mais uma vez a garça começou a cantar, guinchar ou uivar, não tenho bem certeza.

     O fato é que literalmente falando o salão parecia ter se incendiado, com a maioria dos presentes (adultos e alguns idosos inclusive) se levantando e começando a acompanhar aquelas batidas, nuns passos, movimentos e gestos incompreensíveis e completamente loucos.

    Se não fosse pela cerveja geladinha e uns pasteizinhos de carne que estavam divinos, já teria ido embora há muito tempo. E o bate-estacas continuava, a garça não parava de emitir aquele som semelhante a barulho de serra elétrica, e os “pobrema” eram repetidos numa teimosia digna de elogios à perseverança. Entendo que nem todo mundo tem conhecimento necessário para falar corretamente, mas insistir em divulgar o tal de “pobrema”, era uma dose muito forte!

    E já que falei em dose, achei melhor parar com a cerveja e só tomar refrigerante, que aliás, estava morno. Até o final da festa só deu funk e para mim foi um alivio quando me despedi da aniversariante, dos anfitriões e dos amigos. Só fiquei meio desapontado quando ao ligar o rádio do carro, para minha surpresa e decepção estavam tocando mais um dos mais recentes sucessos de “bate-estacas funk”. Aí também já era demais !

    Pelo menos dormi muito bem ( para compensação e alívio, cheguei a sonhar com várias moças que dançavam , `a caráter, o hula-hula havaiano).

    O sábado começou tranquilo,sem muitas novidades. Aproveitei para dar uma passadinha num shopping e comprar o presente, depois fui fazer a barba e cortar o cabelo, comi uma pizza e fiquei assistindo uns filmes antigos até a hora de ir para a festa do casamento.

    A paz e tranquilidade reinavam absolutas e, francamente, tinha me esquecido completamente do martírio de ter convivido tão de perto com uma garça que guinchava e um bate-estacas q ue fizeram o maior sucesso entre jovens , adultos e loucos, executando aquela coisa que alguns chamam de funk.

    A cerimônia na igreja foi belíssima, inclusive abrilhantada pelos acordes de vários violinos. Em seguida fomos para o salão, ao lado da igreja, cuja festa prometia ser o maior sucesso. E de fato, foi um sucesso. O salão estava ricamente ornamentado com flores brancas e vermelhas, os garçons impecavelmente vestidos, a comida e a bebida perfeitos e a música parecia ser conduzida e executada por vários anjos.

    Tudo perfeito, até o momento em que o locutor fez o seguinte anúncio: “Senhoras e senhores, segurem-se! À pedido da noiva, a festa vai bombar!”

    Confesso a vocês que não sabia muito bem o que era ”bombar” e fui descobrir no pior local e na pior hora. Bombar significava aumentar o som e tocar funk, muito funk, só funk e com muitos “pobrema”.

    Não teve jeito, tinha que aguentar. Os convidados vibravam e minha impressão era de ser o único que estava detestando aquilo. Até a avó da noiva, com seus 82 anos de cabelos brancos e alguns ossos à mostra estava se sacudindo, na maior animação.

    O que fiz então ? Pedi a um dos garçons outra cerveja gelada, tirei o paletó, afrouxei a gravata e também fui para o meio do salão.

 

                              *****************

 

NOTAS EXPLICATIVAS :

1 - Realmente fui para o meio do salão, não para dançar o tal do funk, mas simplesmente porque os garçons não estavam passando pela minha mesa.

2 - Os amigos que me desculpem. Mas continuo detestando funk.


(.....imagem google.....)

WRAMOS
Enviado por WRAMOS em 07/12/2007
Reeditado em 05/01/2013
Código do texto: T769244
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
WRAMOS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 72 anos
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