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            O frade e o Velho Chico

            Eis que o fiel romeiro de São Francisco das Chagas acaba de voltar de Canindé. 
            Pra quem não sabe, em Canindé, pequena cidade do Ceará, está o maior santuário franciscano da América Latina; e, agora, tem uma estátua do Poverello, a maior do mundo.

            Sim, ela é a maior estátua sacra do planeta. Não estou mentindo. Nem exagerando, só porque sou um declarado devoto do Pobrezinho de Assis, o santo dos estigmas divinos. 
            Dou, aqui, o tamanho exato da estátua de Canindé, que me foi fornecido quando estive aos seus pés. Anotem: de altura, 30 metros e 25 centímetros!
           Maior, portanto, do que a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e a do padim Ciço Romão Batista, no Juazeiro do Norte.

           Deixei a gigantesca estátua, convencido de que dom frei Luiz Flávio Cappio, no seu protesto contra o projeto oficial de transposição das águas do Velho Chico, tem o aval do Poverello.

           Enquanto estive a espiá-la, "ouvi" do santo do Milênio, esta advertência: -
        "Olha, parem com isso. Não mexam com o meu rio. Antes de pensarem em desviar o seu curso, cuidem de salvá-lo. Nele, já não se pesca como antigamente."
        O surubim, seu peixe mais saboroso, por causa da poluição, está desaparecendo. 
            Logo, faltará água pura para aguar as minhas videiras, responsáveis por centenas de empregos, e pela produção de excelentes vinhos. Se não cuidarem do meu rio, Paulo Afonso perderá sua força; e o Nordeste ficará sem luz."

            Dom frei Luiz é um bispo franciscano. As revistas e os jornais o mostraram no seu hábito marrom, abraçando o São Francisco. E deram destaque à sua corajosa declaração: " Só saio daqui, em procissão ou num caixão"

            A Ordem Franciscana, pelos seus Ministros Provinciais, poderia ter acompanhado, ostensivamente, o seu confrade. Não o fez! 
            A Igreja Católica, ao invés de se colocar, desde a primeira hora, ao lado do bispo Cappio, alimentou discussões sobre se o suicídio é ou não pecado mortal.
           Alguns prelados até teriam indagado se o frade Luiz não estaria pecando, ao se dispor a morrer pelo São Francsico.
          O monge não deu bolas pra ninguém. No silêncio da caatinga pernambucana, permaneceu firme, resoluto, obstinado, na sua greve de fome, por amor ao grande rio.

          O Governo movimentou-se. Usando seus emissários, conversou com dom Luiz, levando-o a encerrar o protesto. 
         Que as autoridades da República atendam, sem atalhos ou subterfúgios, o que lhes pediu o corajoso sacerdote, na humilde capelinha da distante Cabrobó, cidade ribeirinha do Velho Chico.
 
         Uma coisa, porém, tenho com certa: ao lado do frade Cappio estariam, se vivos fossem, frei Damião, padre Cícero, dom Hélder Câmara, e o beato Conselheiro.
          E também o cangaceiro Lampião, se houvesse necessidade de botar alguém pra correr...

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 30/11/2005
Reeditado em 30/01/2008
Código do texto: T78943
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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