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História de Trancoso

Em Portugal, no século XVI, fez sucesso entre os letrados lusitanos a obra “Contos de proveito e exemplo”, de Gonçalo Fernandes Trancoso. Neste livro, Trancoso reuniu histórias que compunham os relatos orais que o povo construía acerca de algumas figuras e fatos considerados marcantes na História Ibérica. Desses relatos emergiram casos extraordinários, situações inverossímeis, levando muitos a associar as histórias de Trancoso a relatos fantasiosos, quiçá mentirosos.
As histórias de Trancoso, enquanto relatos fantasiosos, sem correspondência com um acontecimento real, têm admiradores e adeptos incontáveis. Conheci um e tenho me interessado, esses dias, na arte de contar uma mentira. Sim, arte! Contar uma mentira, qualquer um pode contar; mas, contar uma mentira bem contada, bem amarradinha, não é pra qualquer mentiroso.
Edir é o nome do mentiroso. Ele parece divertir-se contando suas mentiras; eu tenho me divertido as escutando. O mentiroso, assim como o artista, precisa, sente necessidade de um público, por pequeno que seja. Edir parece que encontrou sua platéia, da qual eu, em vários fins de tarde, faço parte. O “teatro” é uma área, no campus da UFPE, destinada à prática de exercícios físicos. Local de presença quase sempre masculina, Edir já conseguiu, com suas histórias de Trancoso, ter platéias de 6, 8 pessoas; público nada desprezível para um mentiroso, convenhamos. Acho que ele até acredita que eu acredito em seus relatos. Escuto atenciosamente as histórias e às vezes, não conseguindo me conter, dou boas risadas. Outro dia, não sei por qual cargas d’água, desatamos a falar de carros. E, interessante isso, muitos mentirosos têm conhecimento enciclopédico; outros, estão sempre muito bem informados. Edir é não só uma pessoa muito bem informada, das mais bem informadas que conheço, como versa sobre muitos e diferentes assuntos. Isso eu comprovei outro dia, quando entramos na conversa sobre carros. Lendo uma revista que ele não lembrava o nome, deparou-se esse  artesão do relato com uma notícia super-interessante:
- Vocês sabem, nos perguntou, quem foi que inventou o carro mais rápido do mundo?
Pensei em responder que tinha sido algum japonês ou coreano; mas só pensei, não tive coragem de falar. Não estragaria, não estava disposto a isso, mais uma apresentação inspirada de um João Grilo. Perguntou, olhou para todos os  presentes que se calaram ante um conhecimento tão específico e, como não vinha resposta, respondeu com um sorriso de superioridade no canto da boca:
- Os americanos! Vocês não sabiam não?
Quase, por um segundo, fiquei com um sentimento de culpa por não saber, aos menos desconfiar, que tinham sido os americanos a inventar o carro mais rápido do mundo . Um outro rapaz, ouvinte assíduo das histórias de Edir, mesmo ainda perplexo com a informação tão particular com a qual estava sendo presenteado, emendou na pergunta que todos os outros estavam se fazendo:
- Mas... como assim... os americanos? Quando foi, onde foi, como é esse carro, Edir?
Ele, ainda com o sorriso discreto porém identificável no canto da boca, de pronto respondeu:
- Bem...detalhes eu não lembro; o nome do cabra tá na ponta da língua mas não sai. Mas a verdade é que foi um tempo desses que inventaram. O carro é tão rápido, mais tão rápido, que foi além da barreira do som, que dizem que fica pras bandas de Natal. Quando você pensa que viu, já não vê mais. O bicho é tão rápido, tão rápido, que seus pneus nem são de borracha.
Ai não me contive e perguntei:
- E são de quê?
- De aço, puro aço! Aço americano!
Calei, consenti e, cá pra nós, deve-se respeito e solidariedade ao bom mentiroso. Ao mentiroso que nos presenteia com os frutos da sua imaginação, desde que esses frutos não cheguem a embrulhar o estômago de ninguém, nossa deferência. Vida longa ao bom mentiroso, ao mentiroso alegre e respeitoso.
Pensei e, mais uma vez, só pensei em lhe perguntar:
- Sim, Edir, e esse carro roda aonde mesmo? Tem pista pra esse carro? E essas pistas têm sinais?
Eu e os outros compreendemos a situação e, sem palavras, rimos e nos despedimos. Afinal, não é todo dia que se recebe tamanha e tão útil informação acerca das mais recentes engenhocas criadas pelos americanos.



Alexandre Valdevino
Dez, 2007
Alexandre Valdevino
Enviado por Alexandre Valdevino em 27/12/2007
Reeditado em 28/09/2008
Código do texto: T794232

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Sobre o autor
Alexandre Valdevino
Recife - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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Alexandre Valdevino