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PRESÉPIOS

Quase Natal! Novas decorações vestem a cidade de luzes e cores. O bom velhinho adere à modernidade e é representado por bonecos ousados que dançam, cantam e dão cambalhotas. A rivalidade das vitrines está evidente na busca pelo design mais arrojado de árvores de natal. Mas não é só a decoração que é fortalecida em enérgicos tons vermelhos, a ansiedade das pessoas está à flor da pele. Mais um ano, menos um ano... Seres que buscam um reencontro com algo mais verdadeiro ou almejam apenas esquecer os problemas cotidianos com as luzes das festas de final de ano. Consumismo, endividamento, renovadas esperanças, profecias catastróficas...

Enfim é Natal... Os presépios reproduzem o nascimento da narrativa cristã. Os três reis magos, a manjedoura, os personagens principais e os acessórios... O menino Jesus e os seus pais na apresentação do nascimento do messias que iria nortear a cultura ocidental e reiniciar o tempo com um novo pensamento religioso.

Penso nos presépios contemporâneos, nos nascimentos que não são apresentados e se fecham na própria impossibilidade de ser. Os noticiários são uma boa fonte de inspiração e, com alguma ficção, posso presenciar realidades distanciadas dos ensinamentos de Jesus.

Uma moradora de rua dá à luz na calçada invisível aos olhares indiferentes dos transeuntes; um ambulante vende seus produtos à margem da passeata por um salário mínimo mais digno; fiscais libertam alguns escravos aprisionados nos latifúndios da impunidade e dão a chance de liberdade aos embriões que herdarão a posição de não incluídos; um jovem casal de classe média recebe o primeiro (e provavelmente único) herdeiro com a alegria da continuidade e o medo da violência e da falta de possibilidade, uma gestante anônima perde o bebê por não receber atendimento médico no hospital público...

Os presépios políticos também são curiosos. O messias nasce sob o olhar atento dos influentes e cresce com a aquiescência dos mesmos. Não é possível identificar os verdadeiros progenitores soterrados pelo esquecimento. Os personagens assumem novos perfis no curso da história e o grande público permanece refém dos fatos reproduzidos pelos interesses ocultos. Um rio de espelhos... Muda-se o tabuleiro, mas a manjedoura é a mesma...

Luta por um salário mínimo digno e aumento dos crediários, libertação de escravos e desemprego, luta pela vida e abandonos, movimentos sociais e políticas econômicas conservadoras... Quantas cruzes não despontam no horizonte? As narrativas dos presépios atuais também são recorrentes e representam os nascimentos de seres que deverão recriar a realidade para que possam, no futuro, sentir a própria origem com algo significativo.

Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 02/12/2005
Reeditado em 05/12/2005
Código do texto: T79932
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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