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Urbe, a vitrine das ilusões e cemitério de esperanças.

URBE, A VITRINE DAS ILUSÕES E CEMITÉRIO DE ESPERANÇAS.
                                                                                                         
       Ali estava a realidade da vida. Toda a razão da existência. O sol, a lua, o céu, a terra, o mar, as ilhas, as montanhas, os vales, as rochas, a fauna, a flora, o ar, os rios, tudo enfim e então: Deus criou o homem? Deu-lhe a inteligência?
       O mundo estava em suas mãos e o destino refém de suas atitudes. Com todo esse aparente poder, o homem investiu em sua sabedoria. Descobriu milhares de coisas e muitas outras criou. Cada vez mais, buscou facilitar e tornar agradável a sua estada na terra. É um suceder interminável de conquistas para si e supressão dos direitos dos demais. É o homem atuando como ator principal da novela mundo, no palco das vidas.
       Com tantas descobertas e criações, precisava manter a sua disposição e bem próximo de si, todas as vantagens e facilidades conquistadas, guardando-as sob seus olhares vigilantes. Para tal, foi criando sucessivas urbes, uma maior e mais bem aparelhada que a outra, todas devidamente guardadas por legislações e soldados do poder. Nessas urbes iam criando-se diferentes sociedades, hábitos e costumes. Rivalidades e competições foram crescendo, fora e dentro das urbes. Àqueles que  não compõem a população central, isso é, que são excluídos do direito de participar dos benefícios do capital, passaram a ser denominados, até pejorativamente, como suburbanos.
       Aos que carregam em suas mãos as enxadas, desbravam os campos e produzem o sustento para todos, mereceram a denominação de rurais. São os homens do campo, aqueles que amam, conhecem e trabalham a terra. Que só conhecem a urbe através de revistas e contos. Porém, as urbes cresceram, seus habitantes multiplicaram-se, edifícios foram erigidos em grandes aglomerados. As ruas foram asfaltadas; lojas abriram-se lado a lado; escolas e universidades abraçaram os filhos urbanos e, cada vez mais, lhes aprimorou o gosto pelas facilidades e benefícios do capitalismo, que lhes possibilita uma vida mais agradável e até saudável, quem sabe! Veículos de transporte cada vez menores e personalizados, tornando o homem urbano mais privado, isolado.        Aparelhos sempre mais sofisticados em busca de  facilitar  e  agradar  ao  espírito consumista e a vontade de levar vantagens para si. Inúmeras casas de dança e clubes sofisticados, sustentados pela pompa e força dos poderosos, os verdadeiros donos e dirigentes das urbes. Assim, aqueles que jamais conheceram uma urbe, são iludidos por cenas criadas em suas mentes, através de contos e imagens fotográficas, mas sem saber na verdade que, poucos são, naquela comunidade, os que têm direito e acesso às suntuosas “maravilhas”.
       Diante das histórias de verdadeiros reinados, com príncipes e princesas, lindas e ricas, cresce no peito do inocente homem do campo, uma vontade incontida de conhecer e viver numa grande urbe, onde certamente, acredita, poderá realizar todos os seus falsos sonhos como os de oferecer o de bom e melhor, para que seus filhos alcancem o sucesso.  Iludidos, deixam o cabo de suas enxadas, reúnem cada dinheirinho economizado, transformam-no em passagens de trem e ônibus e, com tanta alegria dentro do coração, mandam seus filhos, inocentemente, para uma verdadeira guerra, totalmente indefesos e desarmados, à qual terão que enfrentar e apenas sobreviver, quando não envolvidos pela marginalização, drogas e crimes. Outros, ainda com seus filhos pequenos, deixam crescer o brilho de seus olhos pelas oferendas da urbe, partindo com toda a família que, com ele, terão seus olhos muito mais brilhantes, devido as incessantes lágrimas que por muitas vezes, banharão seus rostos, salgarão suas ilusões e diluirão seus sonhos. Só então, entenderão a razão da vida e poderão aquilatar os benefícios do sonhado tesouro, como também, o da peroba com a qual, fez o cabo da enxada.
       Diante da vitrine de ilusões, o homem se maravilha e se abomina. Ama e odeia. Porque nos espelhos dessa vitrine, só pode ver o envoltório da comunidade e nunca o âmago da sua realidade perversa, controvertida, agressiva, corrompida, prepotente e individualista.
       Junto com as edificações urbanas, o homem foi “concretando” sua alma, endurecendo-a, materializando-a e marginalizando-a. Alma que, sucessivamente foi sendo comprada pelos falsos prazeres da vida, aqueles que inevitavelmente  a  levam para  os mais  obscuros  calabouços da indignidade humana. Assim crescem os conglomerados econômico-financeiros, avessos aos reais interesses de uma comunidade sadia, verdadeiramente humanizada e acima de tudo, pacífica. Sob o jugo do progresso, escravizam-se o respeito, a honestidade e a dignidade do ser humano, aos quais restam, a falsa democracia e a liberdade de expressão, numa vitrine de ilusões urbanas onde, a leitura está à disposição, ironicamente, ao menos em sua maioria, daqueles que não possuem sequer, um interesse maior no futuro, por serem, na verdade, os herdeiros dos grandes capitais.
       Na urbe estão os maiores complexos arquitetônicos, mas também, os maiores complexos de favelas. Os maiores e mais modernos hospitais, mas também, os maiores índices de mortalidade por causas violentas. Tudo é proporcionalmente equilibrado. Se,  num prato da balança estão os mais lautos jantares, no outro, inevitavelmente, encontram-se os seres humanos mais desnutridos.
       As urbes são capazes de aumentarem o comprimento dos dias, através de pequeninos sóis artificiais, empurrando os abastados para o consumo exagerado e fazendo dos pobres empregados do falso dia, além de escravos dos malefícios e vícios das noites.
      É diante dessa vitrine inconseqüente que, milhares de cidadãos acabam por perder sua própria liberdade e, continuadamente, enterram todas as suas esperanças, em sucessivas sepulturas que, caprichosamente, a força do capital e da irresponsabilidade, abrem diante de seus passos, evitando que caminhe no sentido buscado pela força do coração e pela angústia do querer conhecer que lhe seria finalmente, o cemitério de todas as esperanças.
     Assim é uma cidade, urbe ou sei lá o quê! Repleta de imprevistos, de diferenças, de príncipes ou súditos e marginalizados. Mas a mesma ilusão que está no campo, ali também está, a mesma esperança, o mesmo ser. O ser. Humano? Inteligente? Que sabe o que quer? Convicto? Afável? Fraterno? Amigo? Ou hipócrita, desonesto, individualista, egocêntrico, materialista e extremamente competitivo? Não sei! Como poderei julgar se sou apenas gente! Um ser até certo ponto abominável!  Mas ali também está a realidade de uma vida. Toda a razão da existência.
       O sol, a lua, o céu, a terra, o mar, as ilhas, as montanhas, os vales, as rochas, a fauna, a flora, o ar, os rios, tudo enfim e, então? - O homem criou Deus? - Deu-lhe a divindade?
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 04/12/2005
Código do texto: T80687

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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