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Uma Mulher Sensível

Uma Mulher sensível

                                     Neuza Ladeira me diz ao telefone que vai hoje falar de Paz, numa escola, a convite de uma amiga.Eu a conheci pessoalmente através do Wilmar Silva(*), editor da Anomelivros, em um evento que aconteceu na Serraria Souza Pinto,aqui em Belo Horizonte, um local reformado para abrigar a Feira do Livro e outros eventos culturais.Sua arte, já a conhecia, pois a editora desse ator-poeta(em qualquer ordem)costuma ilustrar suas edições com as cores de seu estilo.
                                        Uma banda folclórica alegremente, tocava seu repertório.Minha amiga a também poeta Marina Silva Santos, de Teófilo Otoni,que estava comigo, ficou na barraca da ANOME conversando com o Wilmar, sempre cheio de idéias interessantes e eu passei a examinar as telas da Neuzinha,(como alguns a chamam, por causa do tamanho, talvez),ver os livros, pendurados, naquela tenda de sonhos, em urupemas, aquelas peneiras grandes,penduradas no teto.Encantei-me com uma gueixa estilizada.Mais tarde ela disse que a daria a mim,em troca de psicoterapia...Escambo natural, baseado em saberes de poetas...Rimos bastante.
                                           Neuza foi dançar.E o fez à exaustão.Tinha bebido um pouco, estava suada e alegre, cheia de energia.Dava gosto vê-la naquele frenesi, isenta de qualquer constrangimento,livre pássaro...
                                             Neste ano, Elaine Matozinhos, pioneira nas Delegacias Especializadas em Crimes contra a Mulher, homenageou onze mulheres notáveis.Indiquei entre outras, a Neuza.De algumas,devagar irei falando .Sem dúvidas, merecem menção.
                                              Essa poetisa foi torturada, na Ditadura.Passou uns oito anos casada com outro ex-preso político.Lutou pela sobrivência, vendeu legumes.Mas quando o casamento acabou, sentiu-se livre, de novo apta para tentar.Tem quase três décadas de casamento com o novo.Mora numa casa linda, que adora cuidar, pois ama a limpeza. Os que foram torturados às vezes precisam dessa obsessão por cercar-se de ambiente asséptico,ser limpo, para esquecer os agravos de dias e dias sem higiene, propositalmente impostos nos mecanismos da tortura.O jardim da casa é lindo, ela vive passarinhando.Tem duas filhas.Confidencia-me que são  muito calmas, boas moças.Que ela, a artista e poetisa, foi procurar um psiquiatra, uma pessoa doce que lhe disse não precisar de remédios e sim devagar, ir fazendo com que seus demônios fossem se despregando dela.Um demônio, o torturador, é mencionado com um tom de voz diverso de qualquer coisa que fale.Fui repórter nos Anos de Chumbo e presumo saber do que fala.Intuo.Penso que assim qual a experiência da paixão, da viuvez, da orfandade, trata-se de uma experiência muito pessoal.Quem passa, vivencia a seu modo.Imagine-se uma artista, escrevinhadora de versos sutis...
                                                    Noutro dia, eu falava a ela, por telefone, sobre meu poema Alegoria da Tortura, já bem publicado e que anda a correr mundo.Comentei que no final, o protagonista, no qual reuni vários torturados, cria asas.Então ela me disse algo terrível.Belo e terrível:”quando se é torturado, a alma vai embora.Não volta nunca mais...”
                                                     Como psicóloga, compreendo que foi preciso reconstruir um eu,mas que ele é novo, pois o antigo não suportou os agravos.Uma estratégia de sobrevivência...
                                                       Em “Senhora do Destino”, a última novela da rede Globo de Televisão, José Maier faz o personagem que é jornalista e passou pela tortura.No final,alguém lhe  diz para buscar a indenização devida, que vários ex-presos politicos já receberam.Ele diz que não vai cair nessa, o equivalente a não valer mais a pena.Neuza, indignada, me liga e lê uma carta que fez para o autor, Benedito Rui Barbosa, para a Globo,para o Maier.A voz embargada, diz:” a gente apanha feito um boi(penso que os bois não costumam ser assim surrados, mas ela quer dizer, creio, que um boi que apanhasse como os presos políticos apanharam, sucumbiriam)e depois não querem que seja indenizado?”...
                                                       Repete num tom de cortar o coração:”a alma vai embora e não volta nunca mais...
                                                         Escolhi essa artista por seu sofrimento sem finalização.Quisera que ela voasse, como a pessoa representativa de meu poema(“livre, enfim, para voar”, digo).Mas ela está impossibilitada de recuperar a alma da mocinha que foi.Creio porém ,quero crer, com todas as forças de minha própria alma, que Neuza Ladeira coloca um fragmento de si mesma em cada pincelada que delicadamente vai formando as figuras e sinuosidades de suas telas.Estilhaços a recompor um todo.O tempo que vai durar não sei.Canaliza para a pintura e para poesia ou por ambas, sua essência e voa, embora não o creia.A liberdade há tempos, já aconteceu.Hoje, ela falará de Paz para crianças.Sei que a pomba simbólica será mencionada pelos pequenos ouvintes:sugiro-lhe que lhes perguntasse o que acham ser a Paz.Ela adora a idéia.Amanhã vou perguntar se ela pintou essa ave .Ou eles.Quem sabe ao fazê-lo exorcizará seus temores de ainda permanecer sem a alma original?

Clevane Pessoa de Araújo Lopes 22/03/2005
clevane pessoa de araújo lopes
Enviado por clevane pessoa de araújo lopes em 26/03/2005
Reeditado em 02/08/2005
Código do texto: T8096

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Sobre a autora
clevane pessoa de araújo lopes
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 69 anos
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