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Pra eu me bastar*

Por causa de gripe que me tira o ar, a paciência e o juízo, e por eu não acreditar em falta de inspiração, como um amigo, que pediu sugestão a uma boa amiga para escrever uma crônica, também apelei por sugestão alheia pra expirar essa gripe e todo o resto que me sufoca.

Aproveitando a boa amiga que sugeriu ao amigo vários temas para não dar razão à possível falta de inspiração dele, abuso do bom amigo, que escolheu o tema por mim, sem eu nem pedir: “‘pequenas coisas a gente nunca esquece, coisas simples, como alguns diálogos insignificantes que vez ou outra a gente se lembra’”.

Eu, que não sou uma leitora urgente, costumo me encantar com pequenos diálogos, com frases, a ponto de eu, muitas vezes, parar histórias, abandonar livros, contos, e o resto, para não saber a que fim levou – bom ou ruim – esses pedaços de histórias tão belos, alegres, ou bem tristes.

Quando li a crônica do meu amigo, em que falava desses pedaços de diálogos, vontade que tive foi de nem mais ler sobre as confabulações dele quando a frase “estou com saudade de fazer silêncio no seu sossego” surgiu no texto. A vontade de um dia viver a frase foi tão grande que, para não adotá-la de fantasma, tive que terminar de ler a crônica pra expirá-la à força.

A minha identificação com frases, diálogos ou palavras é assim: imensa, que me perco nelas e, geralmente, isso me basta, isso me salva.

Outro dia, lendo um conto, “O príncipe Sapo”, de Caio Fernando Abreu, desisti de saber do final quando chegou num dos diálogos cruciais da história.

Caio Fernando conta a história de Teresa, um quarentona, solteirona, de quem todas as irmãs se casaram, os pais faleceram, e o único amor de sua vida – Gonçalo – casou-se com uma de suas irmãs. Em um determinado momento, Teresa resolve mudar de atitude, de comportamento: busca um príncipe, uma paixão, qualquer coisa que valha a vida. E encontra, encontra a ilusão no tal de príncipe Sapo.

Num dia de espera do príncipe Sapo, quem lhe apareceu foi Gonçalo, fazendo papel de mal cunhado, querendo saber o porquê de mudança brusca de comportamento. Irritada, Teresa fala de suas dores e dispara declaração:

“Gonçalo, eu amei você. Seus olhos verdes, seu violão. Amei a serenata que você nunca me fez.”

Aí, eu nem mais sabia quem dizia a frase: eu ou Teresa. Sei que eu nem quis saber se Gonçalo também amou Teresa, se Gonçalo reagiu indiferente, se príncipe Sapo amou Teresa, ou não. Pra mim, o conto acabou ali, no meu encantamento com a frase por mim vivida, mas nunca dita.

Se minha vida pudesse ser abandonada como eu abandonei o conto de Caio Abreu, pra não saber final, pra não saber se foi bom, ruim, se continuou, ou não; abandonaria minha vida em pelo menos dois momentos nos últimos meses, só para usar todo o resto de imaginação:

– Eu estou apaixonada por você.
– Eu não posso dizer o mesmo, mas eu posso dizer muitas outras coisas.

Ou então:

– O que você faz?
– Eu não sei mais, agora que eu te conheci, eu não sei mais o que eu faço.

Pena que a vida é urgente demais, senão eu estaria ainda inventando muitas outras coisas para ele poder me dizer, eu estaria ainda criando infinitos labirintos para ele poder se perder ainda mais, e, assim, eu me perderia na minha vida, eu me bastaria... só assim eu me salvaria.

*crônica originalmente publicada no site Crônica do Dia - www.patio.com.br/cronica
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 05/12/2005
Código do texto: T81292
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro