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Livros x livraria

Uma ida à livraria é sempre marcante. Não porque você sai de lá com sacolas cheias de promessas de leituras agradáveis, mas sim pela frustração de não encontrar o livro desejado. Não é que nem ir a uma loja de roupas, onde se você não encontrar a blusa da cor que gostaria, basta comprar outra e a sensação é a mesma. Vou estar vestida do mesmo jeito. Mas se eu procuro um livro, não adianta me mostrarem outro parecido. Não tem livro parecido. Ou é o livro que eu quero, que eu li a sinopse, pelo qual me interessei e saí de casa para comprá-lo, ou não é nada. O autor pode até ser o mesmo, mas a história não! Vou estar vestida do mesmo jeito? Não, claro que não! E tem vendedor que insiste, tem esse aqui, é mais novo, esse que você procura está esgotado. Mas o pior vendedor é aquele que não se interessa. Ou não sabe informar mesmo, não conhece os autores, o que é impressionante; o que ele faz numa livraria afinal?!

As livrarias famosas aumentam de tamanho, engolem as menores, mas parecem não se importar com a qualidade do atendimento, e, mais importante ainda, com a qualidade do acervo. É problema de mercado, eu sei, a culpa não é delas, as editoras são cúmplices, a distribuição falha, etc, etc, etc, mas treinar vendedor me parece mais simples que resolver grandes questões capitalistas. Uma vez fui a uma megastore que se tornou uma mega perda de tempo. Cismei em procurar livros de poesia. Sonetos. De Shakespeare, Vinícius e Florbela. Ah, Shakespeare, temos sim, e a vendedora me levou à seção de Teatro. Sorri com delicadeza e emendei: Vinícius?. Ah, esse nós não temos. Florbela? Flor o quê? É, acho que você não vai ter, disse quase com pena. Num último suspiro, perguntei por Camões. Ela ficou me olhando, acho que pedindo para eu ir embora, ou fazer uma pergunta mais fácil. Fiquei com pena. Tá bom, obrigada. Mas já chegando à porta, voltei e perguntei pra coitada da vendedora se eu não podia encomendar os livros. Ela disse um vou ver suplicante, para retornar minutos depois, vitoriosa, com o já esperado e temido não dá pra encomendar, porque os livros não constam do sistema. Sistema... sistema de mandar o cliente embora para nunca mais voltar.

Para não perder mais tempo e também para não ouvir irritantes você tem certeza que o livro é dessa editora?, agora faço listas. E listas grandes que é para aumentar a chance de ter algum na livraria. A última que fiz tinha 11 livros. Quando terminei, pensei logo nos vendedores. Quando um deles se aproximar com a pergunta ensaiada de posso ajudá-la, entrego-lhe a lista e ele vai se arrepender de ter me perguntado. Meu pai já fez pior: sacou uma lista de 30 livros diante de um incrédulo vendedor. Estávamos numa livraria enorme, mas sem a presunção de uma megastore. Estantes intermináveis, abarrotadas de livros, corredores estreitos, e, na época, sem nenhum computador. E vendedores nem sempre pacientes. Meu pai menos ainda. Fomos embora sem comprar nada, depois de ouvir as sábias palavras do vendedor: é muito livro, vai ser difícil achar.

Ontem fui à livraria com a lista na bolsa. Única livraria do shopping. Assim que entrei, uma vendedora ofereceu ajuda. Mostrei-lhe a lista. Esperei pela sua reação com um sorriso escondido. Engano meu. A vendedora foi extremamente simpática e prestativa, dirigindo-se imediatamente ao computador (tem vendedor que apenas aponta o “totem”). Talvez fosse sua primeira semana na livraria. Mas e os livros? Tem esse? Esse não tem. E esse? Esse não. Não tem esse? Esse também não tem. Não tem esse também? Esse também não. Esse não tem? Também não tem. Também não tem esse? Não tem também. Esse também não tem? Não tem. Esse também não? Não tem esse também. Esse não tem também? Também não tem esse. Também não tem? Também não. Não tem? Não. Nenhum. Nem o do autor estrangeiro, ganhador do Nobel, de editora famosa não tinha. Podem me perguntar por que perder tempo indo às livrarias reais se até para encontrar livros antigos as virtuais são mais eficientes? Eu gosto de tocar, pegar, abrir, chacoalhar, ler as orelhas, ver a cara do livro de perto!

Sem livro nas mãos, querendo gritar que eu estava ali para comprar, que não me viessem dizer que as livrarias estão fechando porque ninguém compra livro, porque eu não comprei porque não tinha! Antes que eu começasse a rasgar dinheiro, ou saísse loucamente atrás de uma blusa rosa-choque, tentei achar um livrinho para me acalmar. Comprei um singelo de grandes figuras e poucas letras. Presente para a sobrinha. No caixa, um rapaz também esperava a hora de pagar. Um livro grosso, apetitoso. Puxa, que sorte a dele ter encontrado... Espichei os olhos para ler o título, nem precisei terminar de ler, era de auto-ajuda.

Ajude-me, sou dependente de livros.
Aline Ponce
Enviado por Aline Ponce em 07/12/2005
Reeditado em 02/03/2007
Código do texto: T82190
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Sobre a autora
Aline Ponce
São Carlos - São Paulo - Brasil
13 textos (10128 leituras)
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Aline Ponce