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A última metáfora ( Como explicar a morte?

   Depois de ver tanta gente cair, feito pombo a tiro, vieram me perguntar o que era a morte, como se eu tivesse a verdade nos dentes. Como ansiavam por uma resposta minha, e eu mesmo não a tinha, me veio a idéia das metáforas como única saída e consolo.
   A morte é um estádio de futebol lotado para ver o time que só  depois de uma longa temporada voltará, é a mão que nos tapa os olhos por trás e pergunta: “advinha quem é?” Mas só depois de tê-los abertos saberemos que é ela. A morte é um desconhecido com quem cruzamos na rua e apertando-nos a mão nos convida para sairmos à noite.
Estou cheio de ouvir dizerem que a morte é um sono longo, morrer é como acordar depois de ter dormido mal uma vida inteira num mundo chato e idiota, é  sorrir outra vez como se sorria na infância quando não se entendia nada e o pouco era o suficiente para sorrir. Morrer é esquecer tudo.
A morte (e acho que estou acreditando nessa idéia maluca) é uma ponte curta que nos leva ao lado da rua de casa nunca visto, é como a sensação do primeiro beijo. Lembro bem o meu, aos 9 anos de idade uma menina mais velha me pegou pelo braço e me arrastou para trás de casa, disse pra eu fechar os olhos que eu ia gostar; quando ela encostou os lábios em mim supus que ela queria me comer com a boca, enquanto eu, já de olhos abertos, a via se retorcer toda lambendo minha inocência. Depois disso, passei a ser o horror de todas as menininhas do colégio porque me propus a ensiná-las também a lição.
   Não estou querendo dar à morte uma idéia apreciativa, porque, como todo homem que um dia molhou as calças, tenho horror a ela, e pra falar a verdade só de pensar nela pareço molhá-las outra vez. Antes preferia ver a morte como mudar de casa.
Quando criança costuma imaginar que quem morria tinha ido morar na outra rua. A minha vida era a minha rua. Pobre de mim porque agora conheço a pena do que existe além dela. A minha visão de morte é que cresceu comigo, hoje tenho a impressão de que é simplesmente o efeito primeiro de tudo, como a primeira ejaculação, você nunca sentiu nada semelhante à vida inteira e acha que vai sumir e se sente feliz e perdido e doido, até que... Ah! Ah! Ah!
O gozo é a “petit mort”, pequena morte, e concordo grandemente com a idéia já que essa sensação é como nascer de novo: as pernas tremem, o estômago se comprime, os olhos entortam, os dentes estalam, a pele quente esfria, a cabeça gira e tudo parece acabar ali. Por isso o lugar ideal para morrer é a cama.
   A  morte é uma prostituta velha que nos espera para o último gozo, é a última das metáforas, porque depois dela as metáforas não serão mais metáforas, não existirá o irreal, o figurado, e nós seremos... peraí... nós seremos... sei lá, o que seremos!
  Hei! Não me pergunte nada, a verdade dos meus dentes é pouca, mal sabe ser verdade. A vida inteira, busquei compreender verdadeiramente quem eu era, por  que teria eu de saber o que seremos nós?
Geovane Belo
Enviado por Geovane Belo em 08/12/2005
Reeditado em 09/12/2005
Código do texto: T82673
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Sobre o autor
Geovane Belo
Castanhal - Pará - Brasil
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Geovane Belo