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minha máxima culpa! 

Rosa Pena


Você se foi tão de repente, sem referendo algum. Não tive liberdade de escolha, ainda não se decide isso por aqui, apesar dos humanos se sentirem maior que Deus. Penso em você e imagino-o conversando com o George Harrison, ambos fumantes. Aí é proibido fumar? Tem que se ir ao purgatório dar três tragadas rapidinho e voltar? É um inferno ou um paraíso? Aqui o Cristo Redentor continua de braços abertos, mas os olhos estão cada dia mais fechados. Será que a culpa é do cigarro? A Tsunami acho que foi sim. Será que eu tô fazendo apologia e a galera vai cair de pau? Não deveria, pois já estou convencida de que o planeta vai acabar por culpa dos fumantes. Minha culpa, minha máxima culpa!

O Maraca não fica mais lotado em dia de Fla x Flu; o estádio está tão doente quanto o Rio e os fumantes. Os flanelinhas continuam exigindo dois reais a cada estacionada de carro, institucionalizou-se esta multa. Fumante deveria pagar mais. A empada praiana ainda dá piriri, em fumantes deveria dar mais, como castigo. Os tiros ressoam bem alto em nossos ouvidos, culpa do cidadão que foi dizer não à proibição de armas. Estes, com certeza fumam muito! A Feiticeira ainda usa esteróides anabolizantes, mas virou crente e parou de fumar, que nem a Darlene Glória e jogador de futebol decadente. Viraram exemplos de força de vontade. O café do Rio Sul continua uma delícia e o garçom permanece preguiçoso. Lá não se pode mais fumar. Shopping agora é um lugar muito saudável. O botox barateou demais, então as mulheres estão todas com cara de arigatô! Não tragam, pra não criar bigode chinês, rugas de expressão! Botox não faz mal algum. Sacou, baby? O celular está menor que um isqueiro, porém eu insisto em não aprender a usá-lo. Permanecem os desafios: operar um celular e parar de fumar, duas coisas facílimas e corriqueiras. Uma amiga comparou ambos e afirmou que basta querer. Vou usar Ziban para as ligações.


No inverno está fazendo muito calor e no verão, frio pra dedéu, culpa do efeito nicotina. Em cada esquina persiste um pagodeiro ex-fumante, só viciado em bebida, esta não liquida o azul do céu. Querem virar celebridades no Faustão e este ainda briga com o Gugu, um cara muito bacana, pois nunca fumou, pela audiência no domingo "legal". Quebrar barraco também virou moda. Amassar maços de Free poderia virar, né? A violência
aumentou muito e o presidente transferiu a responsabilidade desse caos total para nós, o povo. Fica com a responsabilidade maior, é óbvio, o viciado em nicotina que, certamente, tem escopeta. Bastou ter arma que se virou guerrilheiro, portanto, seu bisavô — adepto de Ghandi e chegado numa cigarrilha — não era da paz. Ele tinha aquela espingarda na parede e muita fumaça na alma.

Não tente achar sentido em nada, pois nunca fomos bons em lógica, não conseguimos parar com o vício. Uma novidade é o "nome" do roubo dos políticos, que agora se chama mensalão. Ou cuecão, uma puta sacanagem que não dá tesão. Tem gente morrendo por isso. Deveria se chamar cigarrão, que é um mal social bem maior! Decerto, a seca no Amazonas é culpa dos índios, que sempre foram chegados ao tabagismo. Enfim, a transferência de responsabilidade sempre foi a grande solução do mundo.

Ontem fui votar a questão da comercialização de armas. Estacionei e fumei um cigarro dentro do meu carro. Fui abordada por um adepto do Sim, que perguntou qual a minha opção. Disse Não! Olhou com asco para a minha mão. Mereço provavelmente a cruz e levar muita pedrada. Sou o tipo de pessoa nociva para um mundo tão puro de idéias e ideais. Sem tribo, é como eu me sinto. Fantasiar foi o que restou. As linhas de acesso: além da amarela e da vermelha, agora tem outra. Branca! Da cor de seus cabelos. Linha imaginária de uma só mão. Por ela toco na sua. Nela e nas espirais da fumaça assassina eu viajo. Forma de continuar a viver sem você, que acendia meu cigarro sem me olhar, como se eu fosse um ET.

Por que aquele carro atropelou você? Sou capaz de apostar: porque você foi fumante.


In memoriam Jorge, meu pai.
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 12/12/2005
Reeditado em 22/10/2008
Código do texto: T84691
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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