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PERSONAGENS ETERNOS

As imagens dos que habitam as fantasias das crianças são sagradas. São estereótipos marcados em todos os inconscientes, símbolos que acompanham as referências natalinas, circenses, e trazem o aconchego do mundo dos sonhos quando o palhaço faz sorrir e o bom velhinho escorrega pela chaminé com seus presentes. Representações que deveriam ser preservadas num território onírico, mas...

Tumulto na entrada do supermercado. Uma criança de três anos chora desbragadamente enquanto segura as pernas da mãe. Medo de Papai Noel... Olho para o bom velhinho e também me assusto. Um homem magro, beirando uns quarenta anos, cinza e com a barba por fazer, esconde-se na vestimenta vermelha desbotada, quase engolido pela imensidão do pano puído. O menino se acalma, olha com desconfiança para o Papai Noel. Suas primeiras lembranças e as atuais percepções devem travar um longo duelo: Roubaram o Papai Noel?  Será que está doente? Quem é este homem que tenta imitar o Papai Noel? Será que é tudo mentira?

Aproveito a fila no caixa para observar a melancólica figura que fisicamente parece mais um Dom Quixote. Ele se esforça, imita as falas do bom velhinho, deseja feliz natal, oferece até balas, mas as crianças não se aproximam. É claro que ele não é o Papai Noel que mora no Pólo Norte, anda de trenó, tem uma fábrica de brinquedos e é amigo de todas as crianças. O que é? Uma representação empobrecida, talvez um retrato do esgotamento e da perda de ilusões do povo... Um bico para um desempregado... Um susto...

Na esquina, um casal de idosos vende pirulitos no sinaleiro. Eles estão vestidos e maquiados como palhaços e aproveitam o sinal vermelho para oferecer suas guloseimas. Novamente a representação é atropelada pela realidade. A tristeza do casal de aposentados é evidente na própria presença e, quando os senhores/palhaços estão recolhidos ao meio-fio, suas mãos passeiam pelo corpo rastreando a dor de permanecer em pé durante o dia. O suor escorre e recorta a maquiagem, realça as rugas... Títeres abandonados à própria sorte, distantes das lonas coloridas... Uma imagem que estilhaça o espelho de qualquer palhaço e desmistifica o símbolo da alegria.

Resta, aos picadeiros cotidianos, a representação do engano e a reflexão amadurecida sobre a própria projeção no mundo.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 13/12/2005
Código do texto: T85414
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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