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Liso, leve e solto

Numa sociedade capitalista, é compreensível o desejo geral de ganhar dinheiro. Desejo esse que se confunde com a real necessidade e acaba sendo levado ao extremo. A maioria de nós está perseguindo lucros, lutando pelo sustento e, também, por aquele excedente que traga prestígio, riqueza, poder. Precisamos todos, desesperadamente, lucrar.
Além da necessidade física inquestionável do dindim, é interessante, porém, a maneira como nós supervalorizamos as verdinhas. E passamos a entender sua fartura como uma meta inquestionável, de poderes magníficos, capaz de nos dar a beleza, a aprovação das pessoas, o conforto e tudo que desejarmos.
Entretanto, igualmente interessante é como o anonimato e uma relativa pobreza podem fazer bem ao homem.
Trocando em miúdos, é isso mesmo que você está lendo: este texto fala das vantagens de se estar liso. Veja bem, não de SER liso, não de viver em condições sub-humanas e miseráveis. Mas falo de um estado de pindaíba temporária ou não muito intensa, que seja de toda forma suportável, que nos faça refletir sobre como somos privilegiados pelos pouco que possuímos e como podemos ser criativos para obter aquilo que ainda desejamos.
De fato, ter tudo na vida deve ser um saco. Um tédio só. Fiquei meio chocada ao ouvir, pela primeira vez, que os índices de suicídio são altos na Europa enquanto não se ouve falar disso no Brasil. Deve ser porque a pobreza ensina a ser forte.
Se até no velho continente, onde tudo funciona às mil maravilhas, as pessoas estão insatisfeitas, ruim por ruim eu fico com o Brasil, obrigada. Lá, executivos de sucesso saltam de prédios luxuosos. Aqui, a gente enrola a fome com pirulito, mas tem a novela de noite. Aqui, quando a polícia sobe o morro, o bicho pega, mas, em tempos de paz, a gente cai no samba e é feliz. Desenvolvemos uma resistência natural ao miserê, isso é fato. Sabemos nos divertir com o que está às nossas mãos. Mesmo que seja nada.
O que reforça minha teoria de que uma relativa, temporária e leve pindaíba pode sair melhor que a encomenda, porque força a inteligência e torna os relacionamentos mais humanos. Às vezes, é melhor rachar a cerveja com um amigo do que tomá-la sozinho. Às vezes, confeccionar o presente pode ser melhor do que comprar feito.Não sei o que seria da minha infância se os ônibus escolares nunca quebrassem subindo a ladeira da serra, durante nossas “aulas de campo”. Se os computadores nunca estivessem “temporariamente defeituosos”, forçando-nos a ir à biblioteca fazer as coisas à moda antiga.
Falando em à antiga, abençoado o dia em que, por força da pindaíba, os namorados têm que andar de ônibus numa estrada cheia de curvas. Já disse Machado: “a carroça onde deste a primeira volta com a mulher amada vale o carro de Apolo.” É por aí mesmo. Pelo menos, o ônibus onde dás várias voltas e sacudidas com o homem amado vale a Ferrari de Ronaldinho.
Mas não vou encher o leitor amigo com um discurso pseudo-marxista hipócrita. Não. Aliás, se você quiser me pagar pelos serviços prestados, eu mando o número da conta por e-mail. Dindim é bom e todo mundo precisa. Muita gente gosta mesmo.
Estou longe do desapego material de um monge tibetano. Apenas defendo que, se money no bolso não é solução para tudo, a falta dele, eventualmente, pode ajudar a resolver alguns problemas. E que, se chega uma hora em que os estômagos se saturam de comida, deve existir uma hora em que a alma se satura de cifras e pede compreensão, gosto sincero de amor. Sim, carinho mesmo, bons sentimentos e essas demais coisas cada vez mais raras.
E aí, nessa hora, pegando ônibus lotado e comendo sanduíche de R$ 1,00, percebemos que somos humanos e precisamos possuir bem menos. Que, na verdade, só se precisa daquilo que se utiliza. E constata-se, com certa ironia, que é possível, sim, estar liso, leve e solto.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 13/12/2005
Código do texto: T85463
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
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Jéssica Callou