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Segredinhos



Tenho buscado incessantemente O segredo da felicidade. A partir daí, você já pode concluir que não tenho andado muito feliz, porque a gente só procura aquilo que não sabe onde está. Mas, nos breves encontros que tive com a moça, ficou uma impressão forte. Percebi que não tem nada melhor do que simplesmente estar de bem com o mundo e com si mesmo. Nada melhor do que estar feliz. Procurei essa sensação de maneira incessante por todos os lugares onde andei e em todos os rostos que vi. Quase encontrei. Mas ela dava as caras e fugia rápido. Tinha pé de maratonista, a danada. Depois de pensar um pouco, cheguei a umas constatações de cunho generalizado. Nada digno de um Nobel, mas coisas simples que talvez possam ser interessantes. Você julga.

A primeira delas é que, para realmente ser feliz, em toda a amplidão do significado da palavra, é preciso querer sinceramente, e ter muito peito. (nem que isso signifique um implante de silicone). Haverá momentos na vida em que teremos de mostrar serviço e segurar a barra. Ocasiões em que é preciso realmente dizer “não”, e, tão desafiadoras quanto elas, momentos para dizer “sim”. Se você respira sobre a terra, prepare-se para ouvir comentários destrutivos, não agradar a todos, ser injustiçado, forçado a tomar decisões difíceis, fazer o que não gosta, passar por situações constrangedoras. Falo dessas horas, nas quais precisamos mostrar, para o mundo e para nós mesmos, que honramos nossas calças (e saias).

Tais momentos têm incontestável importância, por serem decisivos, terem valor de teste e crescimento pessoal. Mas, longe dos extremos, e tão importante quantos essas “ocasiões especiais”, está a rotina. O arroz com feijão do almoço da terça-feira. É aí que o bicho pega. Estamos acostumados iludir-nos com promessas falsas de felicidade no futuro, fazemos projetos, planos para os dias importantes, esquecemos da importância de cada dia e vamos empurrando com a barriga, seguindo as linhas convencionais e colocando a culpa de nossos (eventuais?) fracassos nos outros. Por covardia mesmo. Criamos mil e uma maneiras de acreditar que nossa vida tem sentido quando não estamos satisfeitos com ela, ou conformados, no máximo. Ocupamo-nos sem saber realmente a causa das festas, celulares, telefonemas, roupas, certas conversas etc, etc. Transforma-se a vida numa seqüência de futilidades, tornando-se meramente um consumidor inexpressivo.

Para ser feliz, o primeiro passo é optar por ter força e resolver de vez que você não veio ao mundo a passeio. É preciso ter coragem de se arriscar no trabalho, nos relacionamentos, coragem de abrir-se, fechar-se, praticar a teoria, desobedecer, beijar, mandar às favas, quebrar a cara. Também é preciso ser sensato para avaliar os riscos, futuras conseqüências dos comportamentos adotados, para então julgar o que vale a pena ou não fazer. E fazer, quando valer a pena.

Mas, sobre a felicidade, a melhor sacada deixei para o final. Sabe O Segredo? Não tem. Sério, não tem. Nem pense que isso facilita as coisas: não existe 1 segredo, mas milhões de segredinhos. Um sorvete na hora certa, uma palavra na hora certa, uma simples presença, uma simples ausência, uma flor, um show de rock... Felicidade absoluta não existe, e o tema é extremamente relativo.
Se você parar alguns minutos para pensar sobre isso, concordará comigo no seguinte: seria ridículo se cada habitante deste mundão precisasse exatamente da mesma coisa para ser feliz. Ou se um indivíduo fosse extremamente feliz com as mesmas coisas, sempre. Aqueles que enxugaram suas lágrimas já devem ter provocado outras tantas. A atividade que lhe dá extremo prazer pode, vez por outra, ficar desinteressante, por motivos variados. Isso porque ninguém nem nada são fontes seguras e eternas de satisfação. Mas, ultimamente, tenho acreditado que a felicidade está no movimento. Em suportar a grande dor, para merecer a grande alegria. Em saber aceitá-la, de braços abertos, e tirar proveito antes que fuja de novo. Essa idéia não é original não, já disse o poeta: “antes dos males a ventura, antes do prazer, a desgraça”.

O que leva a uma segunda dica importante: entender que a vida é uma onda! Com cristas e vales, altos e baixos, e que, se o vale é profundo, alta é a crista. Faz bem sofrer: é quando abandonamos nossa casca de preconceitos, para, desarmados e frágeis, crescermos. É um show a parte perceber como só os fortes conseguem, realmente, sofrer de forma intensa, penar, agonizar. Mas são eles que vivem os grandes amores, fazem os grandes trabalhos, realizam os monumentais projetos. Só quem tem capacidade de sentir a dor extrema da alma pode saber o que são as grandes alegrias, os melhores sentimentos. Por uma simples questão de sensibilidade.

Aliás, de modo geral, a tão procurada sensação anda de mãos dadas com a sensibilidade e a força. Ah, e, claro, um leve toque de ousadia, bom humor, coragem. E ALTAS DOSES DE JOGO DE CINTURA. Coisas ESTAS que você já deve ter e sempre pode adquirir. Na boca dos seus amigos, nos seus livros, suas músicas, na simples dupla caneta-papel, naquele filme, naqueles olhos. Tem várias opções.

Aliás, “variedade” é palavra importante para o entendimento da minha última conclusão, que vou falar logo, antes de você bocejar: somos todos “edição especial, tiragem de luxo”. Ninguém jamais conhecerá ninguém o suficiente para saber todos os segredos da felicidade dessa pessoa. O prazer que Fulana sente escrevendo um texto é o prazer que Fulano sente projetando um viaduto. Mas, dia desses, Fulano pode inventar de fazer uma poesia e, Fulana, descobrir que gosta de consertar encanamento. Somos únicos porque somos vários. O humano é, por natureza, híbrido. Cada um de nós contém diversos “eus” dentro de si, alguns mais desenvolvidos que outros, que se manifestam de maneira imprevisível, vivem o tempo de formas diversas, tendo necessidades mutáveis, dinâmicas e talvez incompreensíveis. Mas Felicidade não é compreensão, é sentimento. Não é folhetim, novela, filme, mas vida real. Hoje. Agora. E não possui um segredo, mas milhares de pequenos segredinhos. Desvende-os.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 13/12/2005
Código do texto: T85587
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
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Jéssica Callou