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Uma Vida Em Ritmo de M.P. B

Numa linda noite de outono, um enamorado estava sozinho em uma favela; a porta do barraco / era sem trinco /mas a lua furando o seu zinco / salpicava de estrela o seu chão e “enfeitava a noite do seu bem”.

Enquanto isso, no centro da cidade, um homem magro e abatido caminhava vagarosamente. De repente, estava ali “um corpo estendido do chão”. Para na contramão, atrapalhando o trânsito”.
É socorrido e logo recupera a consciência e mesmo no tumulto, é reconhecido por um amigo
- “Olá, como vai?”
- “Eu vou indo, e você?”

Apesar da relativa melhora, o amigo decide levá-lo de ônibus a um pronto-socorro. Assim, “vão rodando a cidade a procurar’’. Encontra um hospital cheio, com uma fila imensa e tenta sem sucesso ser atendido na frente, mas é impedido por uma funcionária da portaria “com nervos de aço/ sem sangue na veia / e sem coração”.  Não iria desistir. Desse modo ainda levemente tonto e muito estressado, gritava: “ Se eu perder esse ônibus que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã.’’

Mesmo com todo o caos na saúde, a equipe do pronto-socorro estava completa e antes que pudesse imaginar, chega a sua vez. É recebido por um médico de olhar sereno. Logo que entrou, foi dizendo: - Doutor, “tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar/ com a minha dor”. O médico calmamente pede ao paciente para sentar.

- Qual é o seu nome?
- João
-  Bem, doutor, já perdi as contas de “ quantas noites não durmo / ao rolar-me na cama.’’ Além disso, o “calor das cobertas / não aquece direito / não há nada no mundo / que possa afastar / esse frio do meu peito.’’
 
O médico examina minuciosamente o paciente, solicita um Raio X de tórax e faz uma investigação epidemiológica para tuberculose. Tudo negativo. Devido a sua formação holística, decide interrogar seu João sobre a sua família.
- Seu João, tem tido problemas em casa?
- Doutor, “sei que todos vão dizer / que é tudo mentira / e que não pode ser / mas “já tive mulheres / do tipo atrevida / do tipo acanhada / do tipo vivida / casada / carente, solteira / feliz”, mas a atual foi como “um rio que passou em minha vida / e meu coração se deixou levar.’’ No começo, tudo era uma maravilha; porém, com o passar do tempo, foram ‘‘ tantas coisinhas miúdas / roendo / comendo / arrasando aos poucos com o nosso ideal.’’
Fiquei desempregado, “e sem o seu trabalho / o homem não tem honra / e sem a sua honra / se morre / se mata”. E para piorar “você sabe o que é ter um amor, meu senhor / ter loucura por uma mulher / e depois encontrar esse amor / meu senhor / nos braços de um tipo qualquer.’’

Graça a Deus, “seu médico’’ não matei nem morri de amor, mas a partir daquele dia, sempre que perguntarem por mim, peço para dizer “que fui por aí / levando o meu violão / debaixo do braço / em qualquer botequim eu paro.’’

Hoje, não me alimentei direito e tomei “uns tragos” a mais e passei mal. Por sorte, encontrei o senhor que soube me ouvir e compreender que “o homem também chora / também deseja colo / palavras amenas,/ precisa de carinho,/ precisa de ternura,/ precisa de um abraço  / da própria candura.’’
Por tudo, muito obrigado. “Ah, se todos fossem iguais a você”.

Roberto Passos do Amaral Pereira
Enviado por Roberto Passos do Amaral Pereira em 30/03/2005
Código do texto: T8659
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Sobre o autor
Roberto Passos do Amaral Pereira
Vitória - Espírito Santo - Brasil
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