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A arte do encontro *

A vida é a arte do encontro,
embora haja tantos desencontros pela vida
(Vinicius de Moraes)

Eu que sempre preferi pesadelos a sonhos, desta vez agi diferente. Sonhei que todos os dias eu estacionava o carro em frente a um prédio chamado Poeta Vinicius de Moraes. No pesadelo, ele tinha sido o poeta mais lindamente piegas que eu conhecia, mas já tinha morrido, inclusive, antes de eu nascer. E eu lamentava, sempre que lia o nome do edifício, o maior embora que a vida teve de aceitar: o não encontro de Vinicius e eu.

Quando vivo, Vinicius amou qualquer mulher – portanto que ele estivesse apaixonado por ela – como se fosse a mais linda, a melhor das amantes, e a última mulher que ele seria capaz de amar na vida.

Eu também era assim. Amava os homens como Vinicius amava as mulheres.  Pra mim, o homem por quem eu estava apaixonada era sempre o mais charmoso, o de andar mais bonito, o de voz pausada que eu mais precisava, e eu acreditava sempre que jamais seria capaz de encontrar homem que o superasse.

Vinicius tinha tido muitas mulheres: nove, mas jamais tinha encontrado quem o amasse como ele amava: com todo o sentimentalismo que um romântico piegas como a gente precisava pra sobreviver.

No sonho, eu era a mulher a quem Vinicius buscou em seus nove casamentos. Mas ele tinha morrido, e eu, anos depois, ainda lamuriava o nosso desencontro, ouvindo uma canção em que no meio ele abençoava a vida, mesmo com tantos desencontros.

Entre uma lamentação e outra foi que acordei. Ao invés de aliviada, como acontece quando tenho pesadelos, angustiada. Dia todo passei ligando pro Vinicius, mas nada de ele atender. Ele sempre foi um acordador tarde, mas nem secretária eletrônica de casa atendia. Ninguém tinha notícia de Vinicius, ninguém me perguntou por ele o dia todo.

Resolvi sair, sem saber bem pra onde, mas no meio do percurso de casa para quase todos os lugares que vou, Vinicius me apareceu. Estacionei o carro na beira da calçada em que ele andava, baixei o vidro e disse:

– Vinicius, que bom te encontrar aqui, estava indo não sei aonde pra ver se te encontrava... E logo aqui fui te achar...

– Olhe só, nem precisou me procurar tanto, você me achou...

– Pois é...

– A vida é a arte do encontro... embora haja tantos desencontros pela vida...

– Isso dá uma música... Não, não, não, isso dá uma bênção...

Conversamos por dois minutos, marcamos qualquer coisa, e entrei no carro com um sorriso que mal cabia em mim. No retrovisor o sorriso de Vinicius também mal cabia, mas ainda deu pra vê-lo mexer com os dedos, feito pensando em notas musicais. A cena toda parecia mais um sonho.


*crônica originalmente publicada no site Crônica do Dia - www.patio.com.br/cronica
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 16/12/2005
Código do texto: T86763
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro