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ANDANÇAS

   
     Procurava em cada esquina por onde passava encontrar algo que pudesse me orientar e ditar o caminho que eu deveria seguir  ao encontro do lugar que sempre procuro, quando a angústia me atormenta.
     Queria ver se em cada rosto via algo de real ou vivo que pudesse dizer que tudo o que se passava não era apenas um sonho.
     Pessoas que transitam, nem sempre sabem quem realmente são.  Apenas seguem como se a alma lhes ditasse um caminho a ser seguido rumo a um  lugar qualquer.
     Esperei e tentei por diversas vezes me comunicar com quem passava, porém nunca consegui fazer com que qualquer um desse um sorriso, que pudesse expressar um sentimento que levasse ao verdadeiro entendimento.
     As inúteis tentativas ficavam no vazio que sempre surgia diante de mim e de pessoas que iam e vinham sem rumo.
     Diante das fracassadas tentativas de comunicação, vinha a minha cabeça o pensamento que martelava e dizia “Viaje”. Fuja daqui, procure algo além desta realidade que se apresenta como um mundo.
     O meu julgamento conseguia no momento me isentar de culpas e eu via meus algozes e cobradores me dizer aquilo que nunca queriam ouvir de mim próprio.
     Assim pensando, segui tentando encontrar um novo caminho que me colocasse frente a    um mundo real com aparência de fantasia, onde eu pudesse sonhar sem ter que passar por sofrimento.
     Os meus passos continuavam precisos, porém não conseguia encontrar ninguém para compartilhar comigo meus sentimentos, desejos e anseios que aumentavam à medida que ia seguindo e procurando encontrar outra alternativa. Outro caminho rumo ao local que eu sempre desejo e procuro.
     Enquanto ia passando por pessoas que pareciam ser robôs, sentia a necessidade de cada vez mais me afastar. Tentava com isto encontrar uma passagem que pudesse me levar ao lugar onde estivera outras vezes. Aquele mundo dos sonhos que jamais seria alcançado pela maioria das pessoas da terra.
     Meu desejo e a minha vontade me impulsionavam em frente e neste momento sabia que seguia rumo a um lugar onde nem mesmo eu sabia qual era.
     Embora os passos fossem precisos, não sabia a direção. Meu espírito estava ativo e consciente daquilo que eu queria e sabia que poderia encontrar, desde que conseguisse encontrar-me no tempo e espaço certo para  atravessar a tênue barreia que separava uma realidade de outra.
     O relógio marcava 15 horas e minha mente se deslocou para o sertão, onde da última vez eu caminhara por horas a fio, tentando encontrar o lugar que julgava ser o certo onde eu poderia transpor o “portal”. Viajaria  ao lugar que é o  desejo de todo ser humano que não se encontra preso às coisas banais do mundo físico.
     Enquanto andava lembrava-me das últimas palavras dela, quando falara da minha promessa e meu compromisso.   As palavras vinham a minha mente e ficaram martelando desde aquela época, quando ela me dissera aquelas palavras.
    Lembrava dos seus olhos, do rosto que parecia ser feito de marfim; o sorriso delicado e seus movimentos pareciam flutuar, quando seus pensamentos cruzaram com os meus.
     Um lugar que me lembrava o paraíso e me trazia recordações e a necessidade de voltar e quiçá ficar lá de uma vez por todas. Mas, segundo ela, ainda não poderia ser, pois o tempo ainda não se fizera completo.
     Enquanto andava, iam surgindo os pensamentos que preenchiam minha cabeça e por mais que tentasse fugir deles, sempre retornava ao mesmo assunto. Queria preencher meu espírito de esperanças e conseguir transpor o portal. Um local hipotético talvez não existente, mas que eu já ultrapassara outras vezes e ligara uma realidade à outra. Local onde os perfumes ondulavam em todas as direções, seguindo de acordo com a leve brisa que soprava levando o pólen das plantas. Um mundo multicolorido que muitos poderiam chamar de surrealista.
     Meu pensamento divagava, seguia um caminho que eu sabia existir. Passei por pessoas conhecidas e com leve aceno de cabeça as cumprimentei ao esboçar um leve sorriso. No entanto, não parei para conversar, necessitava ir ao encontro daquele lugar  que eu desejava fosse real e não um fruto de minha imaginação, que criava algo de real para manter-me feliz diante de tantas angústias que atribulavam o mundo.
     A esperança me impulsionava ao lugar que queria buscar. Mas certo desalento vinha vez por outra me atormentar.  Já andara por mais de uma hora e nada. Apenas as recordações eram reais. Ainda não conseguira encontrar o lugar onde  pudesse deixar este mundo para chegar ao outro.
     Enquanto seguia, meu pensamento ia e vinha fugindo do real e procurando o ilusório. As dúvidas às vezes se tornavam sofrimento perante um mundo que massacra os que sonham. Um mundo onde o concretismo alimenta as almas que ficam presas aos desejos   que atribulam todos aqueles ainda presos ao físico.
     Os sons das buzinas dos carros que passavam indicavam que ainda me encontrava dentro do contexto do mundo da matéria densa que atormenta aos que procuram uma razão para a vida superior.
     Deslocava-me por ruas cheias de pessoas, mas vazias, sem espírito. Olhava atentamente todos os detalhes que surgiam a cada nova pessoa pelas quais eu passava.
     As análises que fazia não eram apenas das formas físicas. Eu procurava entrar na alma de cada um e tentava descobrir seus pensamentos. Enquanto pensava, minhas recordações voltaram ao “paraíso” já visitado. Local onde eu ainda não podia continuar em virtude do compromisso por mim assumido. Nas minhas lembranças conscientes não conseguia lembrar ou entender.
     A falta de consciência da maioria da humanidade meio bestializada coloca uns poucos como “Aliens”. Falam coisas que quase ninguém quer ou consegue entender.
     Sofrimento é o que resta àqueles considerados diferentes.
     O preço que se paga por assumir compromissos que não sabemos ser possível cumprir, é alto. Quando o sofrimento nos abate, sentimos o peso da responsabilidade e sempre sonhamos com uma fuga, tentando com isso aliviar nossos pesares.
     Resta-me, pois, saber que existe outra realidade que não é esta.  Realidade que nos coloca perante a  sociedade como algo diferente ,a ser evitada por todos considerados “normais”.
     A verdadeira anormalidade existe dentro de cada um, que não consegue entender e conviver com todas as formas de vida que pulula em todos os cantos do universo. “É necessário que se consiga conviver com as diferenças existentes, isto não implica necessariamente em anular nossas características mas, sim, saber conviver com os nossos e os defeitos dos outros, pois isto é, sem dúvida, o princípio do amor”.
     Quando vem ao pensamento esta máxima, resta-me o consolo que serve de advertência e coloca-me perante o resto da sociedade como alguém que deve ter mais tolerância.
     Tento afastar do pensamento as frases e conselhos que sempre vêm, à medida que avanço procurando o lugar  do desejo de todo homem consciente. Local que se procura para fugir do cotidiano amargo.
     O sol algumas vezes esquenta quando as nuvens se afastam e deixa seus raios atingirem com toda a plenitude o solo recoberto de um asfalto todo esburacado. As poças de lama indicam o descaso e falta de respeito dos governantes por seus habitantes. A culpa é sempre do imponderável. “Excesso de chuva”
     Neste ano a natureza cobra parte dos seus créditos de homens insensatos que ousaram macular toda sua estrutura em todos os lugares. O verão dá os seus tons em forma de cobrança com excesso de chuvas. Esta é a forma de manifestação dos elementos em todos os lugares do mundo. Quem está vendo?
     Tudo é normal dentro da lógica simplista da maioria que não ousa pensar, pois se assustam com os monstros que criaram e alimentam todos os dias de suas vidas. Preferem o medo à verdade.
     As análises que faço, à medida que ando,  servem de consolo e me acalmam evitando que o sofrimento tome conta desta alma que sofre perante os sofrimentos e as injustiças do  mundo.
     Quando relembro fatos e palavras ouvidas, insultos gratuitos, as lágrimas matreiras teimam em descer rosto abaixo e, disfarçadamente, limpo-as com o dorso da mão, evitando que outros possam ver, pois nunca poderão entender o motivo delas.
     Os questionamentos surgem enquanto sigo procurando o local ideal que possa servir de portal para um mundo onde nada disto é visto. Local onde o equilíbrio é perfeito nada se encontra fora dos lugares em que foram criados.
     As palavras que “sentira”, os sorrisos que observara nos habitantes daquele mundo, mantêm minha alma com esperanças de um dia, no futuro, os habitantes da terra consigam  aquele grau de evolução. Quando isso acontecer, a natureza estará equilibrada com seus habitantes e não mais irá cobrar de forma violenta o que causa tanto sofrimento aos humanos. Mas ninguém é inocente.
     Ela é minha esperança, eu sei que existe algo muito mais do que um simples sonho e preencha todos os espaços porventura existentes dentro do contexto do homem e do mundo.
     Vou seguindo, sabendo no entanto, que tudo é passageiro e em algum lugar do tempo e do espaço irei encontrar o objeto do meu  desejo. A verdadeira felicidade.
     Novamente, quando o sol se ocultou por trás de espessas nuvens, olhei para o alto e vi que há indício de fortes chuvas. Isso irá atormentar pessoas que se encontram dentro da sociedade, indefesas. Vivem como animais acuados em barracos que sempre se encontram à beira dos córregos que cortam as cidades. Párias sociais.
     Uma torrente de pensamentos me assalta.  Os sons que ouço ou alguma coisa que vejo continua em forma de cachoeira, jorrando ininterruptamente e, no entanto, encontra em mim uma análise mesmo que rápida e que ora transcrevo.
     A minha busca não será interrompida, mesmo que não consiga alcançar nesta jornada o lugar almejado e desejado.
     Ainda que não consiga cumprir com todas as minhas promessas e mesmo que nem delas me lembre, ainda assim caminharei à procura de alguma coisa que existe e que ainda irei encontrar, mesmo que o tempo se torne um verdugo de um corpo cansado e maltratado pelas andanças que ora executo.

15/02/04-VEM



Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 18/12/2005
Reeditado em 15/08/2008
Código do texto: T87618
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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