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Filhos...

 Começam a fazer parte da vida da gente quando ainda somos crianças , quando embalamos nos braços as bonecas nas nossas brincadeiras de comadre. Quando atingimos a adolescência sentimo-nos suficientemente amadurecidas para tomar conta de um bebê de  verdade queremos num ímpeto carregar no colo todas as crianças que encontramos nas festas, nas ruas, nos caminhos...
Ao chegar a idade do fogo , do calor , da fúria juvenil os filhos nos  soam como problemas, e tentamos nem pensar neles .Filhos nessa altura do campeonato significa perdas de noite, abdicação de festas, passeios, farra com a turma...Não... filhos nessa idade , nessa idade não!
De repente no meio da multidão um rosto, e com ele a luz. Sua voz é perfumada e macia , seu cheiro é enebriante , seu hálito é doce, sua presença é marcante. “É ele __ pensamos --__ tem que ser ele, é claro que é ele!” E pronto. Estamos apaixonadas . Sonhamos novamente com as brincadeiras de comadre. Desta vez entretanto ,temos na nossa casa de brinquedos um personagem especial  : ELE  .
Comidinhas, chás, dengo , charme e tudo o que for possível para agradar o nosso hóspede especial . Por que não uma foto perdida no tempo, uma foto que determine o nosso amor? Por que não? Qualquer um que a veja poderá com certeza afirmar : é o fruto do amor DELA E DELE . E... depois todo  ele é vaidoso, gosta de se sentir perpetuado numa cópia mesmo que  não tenha sido planejada . E pronto: está selado o amor .
           Nasceu o primeiro filho. É tão difícil não ama-lo mais do que a ele... O filho é igualzinho... mas sem os defeitos ( graças a Deus!).Sentimo-nos poderosas, podemos fazer do filho o sonho realizado. Moldamos aqui, ajeitamos  ali , e quando pensamos que tudo está resolvido , surge  a grande inimiga : a INDIVIDUALIDADE.
Isso num primeiro momento nos parece um problema , é difícil ver todo um planejamento ir por água abaixo. Já pensou se o tal do sangue fala mais alto? E o sangue começa a se mostrar : preferências, gênio, inclinações... mas ainda bem que não é tudo igualzinho !Afinal temos que ter todas as forças do  mundo pois vem aí uma nova fase de adaptação. E os filhos deixam de ser crianças, e adolescem ...
Esse é um momento difícil, talvez o maior de todos , não só para eles mas também para nós . Eles nos gritam que o tempo passou, o espelho nos mostra , mas nós não acreditamos . Os filhos então passam a ser os nossos credores mais acerados . Nunca conseguimos pagar tudo que devemos a eles. O dinheiro é sempre insuficiente, nós somos sempre intransigentes, castradores, incompreensivas, autoritárias, verdadeiras bruxas quando não atendemos os seus anseios , verdadeiras fadas quando satisfazemos os seus desejos. Mas tudo é perfeitamente superável.
E os filhos crescem, e as vozes mudam e o tempo fica cada vez mais escasso. Passamos a sentir que temos que ter  uma espécie de agenda familiar, não podemos contar com a noite sem pensar na manhã seguinte e o tempo que nos sobra , falta aos nossos filhos .
As consultas passam a se tornar comunicações, a autoridade passa a ser passiva, representativa... de adorno ( por uma questão de respeito) . Breve nossos filhos não mais serão nossos filhos e trocarão de papel  conosco . Precisaremos ter permissão para tudo, o que comer, a hora de dormir, onde ir, com quem , o médico, o filme ... tudo !
Meu Deus... O que eu fiz!
Meu Deus... O que me espera!

         “Filhos...filhos... melhor não tê-los
           mas se não tê-los, como sabe-los?”
Marluci Brasil
Enviado por Marluci Brasil em 20/12/2005
Código do texto: T88595
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Sobre a autora
Marluci Brasil
Corumbá - Mato Grosso do Sul - Brasil, 61 anos
60 textos (4679 leituras)
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Marluci Brasil