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A dor do remorso

A dor apertava-lhe o útero.
Sentiu o líquido quente percolher-lhe as coxas. Passou os dedos e percebeu que era sangue, denso e escuro. Uma sensação de raiva, dor e repulsa misturava-se com o sentimento da perda. Ergueu o telefone, com as mãos trêmulas, conseguiu discar e balbuciar poucas palavras de socorro. As pernas já não conseguiam mais segurar-lhe o peso, os lábios secaram e ela caiu sobre o tapete.
Acordara em um quarto estranho, ladeada de flores com cheiro de álcool, a visão ofuscada pelo sol que penetrava pela janela.
Voltou-lhe então as lembranças do sangue, da dor e do erguer do telefone.
Não queria ouvir o que já sabia, fechou os olhos rapidamente ao perceber que alguém adentrava o quarto.

-Ela está sedada. Logo acordará e poderão conversar. Não, não sente dor.

Ora, acabara de perder o sonho mais doce de sua vida, e alguém que ela nem conhece vem dizer que não sente dor? Como pode? Estudou tantos anos para tornar-se o Doutor Insensível?
Ouviu o fechar da porta. E sentiu que a mão que ela mais amava e odiava naquele momento acariciava-lhe os cabelos. Era melhor esquecer tudo que acontecera.
Abriu os olhos.
Ele a olhava com amor, compartilhavam da mesma dor.
Beijou-lhe os lábios com carinho, ela percebia o quanto ele tentava ser forte. Sempre fora assim. Por mais que algo lhe afrontasse ele não se deixava abater.
A mulher que ele venerava havia perdido o filho que os dois tanto celebraram. Era triste vê-la alí, pálida, deprimida. Antes de sair de casa, aquela manhã, tomaram café juntos, ela estava feliz, eufórica para as compras de Natal. Fora com ele até o carro, deu-lhe um beijo de despedida, passou na caixinha de correspondências, retirou-as e, antes de entrar novamente para a casa, deu-lhe um aceno e jogou-lhe um beijo, uma manhã normal, como todas as outras.

Foram informados de que, por precaução, ela teria que passar aquela noite sob observação no hospital. Ele quis   acompanhá-la, mas ela preferiu ficar sozinha, não adiantou que insistisse.
Então, ficou com ela até o horário permitido, eles despediram-se  carinhosamente e foi para a casa.
Abriu a porta, deparou-se com o sangue que manchara o tapete. Na hora em que socorrera a mulher, nem conseguira reparar na cena. O telefone ainda caído no chão e, um pouco mais adiante, sobre a mesa, um pedaço de papel amassado.
Juntou o telefone, testou-o e assegurando-se do seu funcionamento devolveu-o ao seu lugar. Retirou o tapete, enrolou-o e o colocou num canto da sala, iria subsituí-lo por outro bem melhor, antes que ela retornasse.
Fitou o papel amassado que estava sobre a mesa, estranhou, ela era tão organizada, odiava a desordem... Resolveu desamassá-lo, curioso para saber do que se tratava.

-Meu Deus, é a letra da Veruska!

Veruska, aquela menina sacaninha que ele conhecera há alguns meses.
Foi numa  viagem de negócios. Após a exaustiva reunião, antes de ir para o hotel, resolveu parar num barzinho próximo para tomar um chopp. Sentou-se na mesinha do bar e avistou na mesa ao lado uma menina de cabelos vermelhos, sozinha.
Ela o olhava sem disfarçar.
Ele disfarçava, já tinha tomado mais chopps do que deveria e decidiu prudentemente que era melhor ir dormir.
Após pagar a conta  a menina sentou-se ao lado dele. Saia curtíssima, pernas bronzeadas à mostra. Top cor de rosa que deixava o umbigo de fora, cheiro de flor.
Ela o pegou pela mão, e ele, no alto dos seus chopps, a seguiu.

-Sou Veruska, muito prazer!

-Prazer, Alberto.

-Qual é o seu hotel Alberto?

-É aquele ali em frente...

-Ah, ótimo! Vou levá-lo até seu quarto, você já tomou chopps demais!

Ele teria que dizer que não, mas era impossível. Ela era muito atraente e depois, seria só aquela noite, amanhã iria para casa e nunca mais se encontrariam.
Ao acordar, no outro dia, zonzo, lembrara-se do que fizera, pois Veruska havia deixado um bilhete agradecendo a noite maravilhosa e desejando-lhe felicidades. O remorso lhe corroía o coração, foi para casa, abraçou a mulher, tinha certeza mais do que nunca de que ela era a mulher de sua vida.

Agora, a  carta da Veruska queimava em sua mão, e o conteúdo dizia o quanto ela sentia saudades, e que amenizava o sofrimento ao amamentar o fruto daquela noite, tão especial.
Catia Schneider
Enviado por Catia Schneider em 20/12/2005
Reeditado em 20/12/2005
Código do texto: T88649
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Sobre a autora
Catia Schneider
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 38 anos
147 textos (33311 leituras)
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Catia Schneider