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          PAPAI NOEL VIROU ARROZ DE FESTA!



               Minha mãe guarda até hoje uma foto minha com Papai Noel - em preto e branco, lógico! Eu devia ter uns quatro anos de idade – já fui criança, sim, amiguinhos – e estava vestida com o que, com certeza, era minha melhor roupa. É o retrato de uma criança em pânico. Aliás, cada vez que olho praquela fotografia tenho a nítida impressão de que me lembro do pavor que senti ao ser abraçada por aquele ser fantástico. O Papai Noel da minha infância era uma figura única que, na semana que antecedia o Natal, ficava sentado numa espécie de trono, em uma grande loja da cidade, cercado de presentes e recebendo as cartinhas das crianças, que justificavam seus pedidos de brinquedos com uma pequena lista do que tinham feito de bom, ou do que não tinham feito de mau. Por perto sempre havia um fotógrafo pra registrar o momento e defender o Natal dos seus filhinhos. Quem não podia ir à loja entregar a cartinha pra Papai Noel, pedia pros pais colocarem no Correio ou fazia seus pedidos em orações. Vejam bem: só havia um Papai Noel em exibição, por um curto espaço de tempo e mantendo uma certa distância das crianças.

               Quando minhas filhas eram pequenas, durante todo o mês de dezembro, havia um Papai Noel em cada shopping, cercado mais ou menos pelo mesmo cenário de 30 anos atrás. A foto já era colorida e profissionalmente tirada pelos produtores do evento que, é óbvio, lucravam com mais esse item. Faço um parêntese pra registrar que nunca submeti as meninas a essa experiência tão traumática pra mim... No dia de Natal, o bom velhinho, pela manhã, chegava à casa de meus pais, levando os presentes das crianças. Era uma honra receber aquela visita em particular, longe das multidões dos shoppings. Uma festa emocionante! Choravam crianças, pais, mães, avós e Papai Noel, que até hoje não revelamos quem era... O Natal das minhas filhas era povoado por vários Papais Noéis, durante todo o mês de dezembro, sendo que o Verdadeiro, no dia de Natal ia à casa de seus avós levando os presentes... Já começou a rolar uma certa intimidade na relação, percebem?

               No século XXI Papai Noel senta praça em cada esquina no início de novembro. Só espera passar o dia de Finados pra entrar em cena, invadindo ruas, lojas, supermercados, jornais, revistas, outdoors, e até as nossas casas, acompanhado de toda a parafernália criada pra vender tudo aquilo de que não precisamos e que não podemos pagar. É Papai Noel pra tudo que é lado. Esse ano já encontrei um na praia, debaixo do maior sol e todo paramentado. Não faltavam nem as botas, cheias de areia... Algumas poucas crianças ainda olham pra trás, enquanto são arrastadas por suas mães pelas ruas entupidas de gente. A maioria, porém, nem liga... Ah! Fotografia? Quem é que vai querer pagar esse mico?

               Aí eu embatuco: e os meus netos, quando os tiver...? Como será o Papai Noel deles? Acho que só há duas possibilidades: ou se recupera a lenda ou se detona o mito...

               Lanço aqui uma campanha pelo resgate da lenda: ABAIXO O PAPAI NOEL REPLICANTE! PELO FIM DA PROMISCUIDADE NOELINA!

               Quem adere?
Rosane Coelho
Enviado por Rosane Coelho em 23/12/2005
Reeditado em 01/01/2006
Código do texto: T89720
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Sobre a autora
Rosane Coelho
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 62 anos
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1 e-livros (108 leituras)
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Rosane Coelho