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como você é seu cão

E desculpe o começo clichê, mas eu lembro que minha avó sempre dizia que os cães adquirem muitas coisas da personalidade do dono.  De tanto conviver com você, depender de você, seu totó acaba pegando alguns de seus hábitos, seu time e possivelmente até suas neuroses.  O meu cão, por exemplo - é uma cachorrinha na verdade - vive na rua, roendo os parcos ossos que a vida lhe oferece.  Tem uma mania de pular e correr sempre que vê alguém desconhecido ou com o qual não topa com a cara de jeito nenhum.  Se deixar ela fica dias sumida, flertando com os cães mais vadios da rua.  Prefere assim.  Eu já tentei lhe aplicar lacinhos, roupinhas e outras frescuras, mas ela recusou.  E olha que é uma poodle.  Mas nega a raça.  Também já arranjamos, para ela namorar, um cachorro desses bem alimentados a base de pedigree champ  e com árvore genealógica e tudo, mas ela não gostou não, achou que o bicho não tinha muita iniciativa.  Olhou para aquele ser fofinho e perfumado, deu uma torcida na orelha esquerda e foi embora resmungando que aquele bicho não prestava, tinha um odor de lavanda e ela odiava lavanda.  Latiu que parecia cheiro de roupa de neném.  Como ela saca dessas coisas? Às vezes eu consigo ouvi-la, não é loucura,  mas só quando estou de bem com as árvores.  E isso não é sempre.  Certa vez, não sei se por acidente ou revolta – ela se enforcou com um elástico, abrindo um corte de uns cinco centímetros no pescoço.  Mas ficou ali, aninhada atrás do armário da sala, num cantinho sem deixar que ninguém a tocasse, amargando sua dor, a dor que era só sua.  Como ela não fosse lá desses cães pachorrentos, teve uma hora eu não agüentei e fui trocar uma idéia com meu bichinho.  Foi aí que acariciando sua cabeça – coisa que ela adora – descobri um naco de sangue já estancado e frio, uma massa quase preta que fazia relevo em sua pele.  Desesperei na hora.  Mas catei meus últimos centavos que tinha e a levei ao veterinário perto de casa.  Veterinário bem fuleiro, é verdade, que funcionava nos fundos de um pet shop desses de subúrbio, cuja  principal atração são aqueles coelhinhos brancos subnutridos em gaiolas.  Chegando lá, fomos atendidos, quer dizer, a Penélope foi atendida por uma mocinha loira recém-formada, que me olhou com aquele ar de quem diz “ô mãe desnaturada” enquanto adulava o meu totó.  Felizmente ela foi atendida a tempo e teve jeito de salvar, mas ainda assim eu teria que comprar uma lista de remédios que eu nunca ousei nem para mim mesma.  Mamãe meu proibiu de comprar todos eles, é claro, sob alegação de que o anti-inflamatório a gente mesmo podia produzir lá em casa.  Troca por aroeira, que tem no quintal a dar com pau e faz o mesmo efeito.  “Ficar gastando dinheiro com cachorro, eu hein”.  Mas voltei com a Pepê para casa, debaixo do braço.  Íamos caminhando, quer dizer, eu ia caminhando com ela no colo, certa de ter feito minha boa ação do ano.  E ela já com a lingüinha de fora, mais feliz, com a ferida desinfetada e sem aquelas dores secas das  feridas de corte
Depois disso ela foi outra.  E eu também.  Deixei ela ficar do jeito gosta, andar meio largada, esparramada por aí nas calçadas, torrando entre sol e cimento, ao lado do poste; e, embora houvesse em casa xampus e sabonetinhos anti-pulgas, ela nunca mais conseguiu apanhar um cheiro bom de cachorro lavado.  Não que eu  trate mal ou que não tenha apreço pelo meu bichinho, mas é que prefiro deixar ela se virar na dela, independente e solitária.  É um lobinho agora, só falta cassar para comer.  Já teve alguns filhotes, mas eles foram todos embora, alguns sobreviveram, mas nunca mais os vimos.  Engraçado que sempre que ela vai ter os filhotes, não faz alarde nenhum, não chama ninguém, escolhe um canto e deixa a natureza agir.  Numa dessas, um pequeno nasceu prematuro e agonizou uma noite inteira.  A gente sem saber que fazer.  Ela, no seu desespero canino, foi tentar um curativo, mas conseguiu foi arrancar o cordão umbilical e o filhotinho sangrou, sangrou um filetinho só de sangue, que foi o suficiente para ele morrer.  E ela andou pela casa com ele na boca, durinho e branco, sem sangue e triste.  Largou o corpo embaixo da minha cama, como se me culpasse.  Talvez me culpe mesmo por eu ter permitido a ela tanta liberdade.  Se fosse mais dependente, talvez conseguisse pedir ajuda.
Mas isso tudo passou e no dia seguinte ela já estava bem.  Ficou mais rueira ainda do que antes.  Bem, hoje em dia  eu chego do trabalho, dou uma batidinha de leve na cabeça dela, ela dá uns pulos para mim, fica feliz ao me ver e depois aproveita e brecha que eu deixei no portão e puf, some para rua, vai se divertir com seus amigos.  Ou esquecer, sei lá.  Já não vou mais atrás dela, deixa ela lá, ela já sabe ser livre.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 26/12/2005
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T90618
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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