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Foi bom para você?

Talvez a nova geração que aí está se descobrindo, não perceba a sutileza que existe em certos rituais ou comemorações, que muito expressam valores de uma geração anterior.
Há sempre muita beleza em cada época vivida, e o tempo, através da eternidade, vai compondo a verdadeira história da humanidade!
Esta crônica é em verdade uma homenagem a um amigo especial, que de uma forma bastante peculiar, presenteou-me com alguns ensinamentos preciosos...os quais partilho com vocês neste momento.
Um casal amigo comum nosso, ao comemorar as Bodas de Prata, reuniu a família e alguns poucos amigos, pois a realidade de hoje, nãos nos permite excessos, por conta da contingência estrutural da economia dos pais.
O que se pretendeu foi ritualizar um momento já vivido no passado, que em verdade sacraliza os valores que unem a família. A reunião aconteceu de forma descontraída, agradável e alegre, uma vez que o grupo era animado e contava com espíritos sadiamente divertidos. Conversas, cumprimentos, atualização de informações, enfim tudo que acontece normalmente nestas reuniões informais.
O feliz casal, como anfitriões incansáveis, acompanhava o desenrolar do evento, participando em tudo com entusiasmo.
O “noivo", empolgado consumia liberalmente o "néctar dos deuses", brindando seguidamente com seus convidados. Tão entretido em sua comemoração estava, que em dado momento, desapareceu, aproveitando-se do movimento, indo para o quarto dormir! ... E de pijama e tudo!
Eis que é chegada a hora da comemoração "oficial". Uma bela mesa enfeitada com doces, bolo e quitutes, caprichosamente elaborados, foi o pano de fundo para o brinde com champanha. Ah! Bebida que tradicionalmente é o símbolo do requinte, da sutileza maior ligada, é claro, aos prazeres mais elementares do ser humano! Neste instante todos procuram o anfitrião, e se dão conta de que não estava presente entre eles.
A “noiva", ao descobrir onde seu companheiro estava, por alguns momentos ficou sem saber como agir. Ato contínuo, um dos amigos junto ao cunhado, mais que depressa tomou frente na situação e resolveu ajudar o amigo, deixando-o em forma...
Assim, o noivo é forçado a deixar o mundo dos sonhos e fantasias, indo lidar com a realidade imediata, que exigia dele um certo esforço, já que mergulhara nas delícias da inconsciência...
Bem humorado, alguns minutos depois, reaparece o noivo, com o olhar sonado, a expressão um tanto amarrotada, é verdade, mas firme e sorridente...
E lá vai ele, acompanhado por sua doce esposa, estourar o champanha, num ato representativo do que haviam vivido há 25 anos atrás.
Ocorre que ele tenta, tenta, e nada... Não há como conseguir estourar a danada... Solicitamente mais uma vez o amigo corre em seu auxílio... E nada! O cunhado, que estava próximo, junta-se à mesa e..., nada... A expectativa aumenta... Os convidados em silêncio suspensos aguardavam o momento de comemorar...
No intuito de quebrar qualquer possível constrangimento, o filho mais velho do casal e um sobrinho, ambos com idade por volta dos 25 anos, assumem a garrafa e...Ploc! Finalmente há o "espocar", promovendo um brinde alegre e animado!
Interessante pensarmos que, o elemento que faltava para que a garrafa estourasse...era a juventude! Hum! Interessante...
Enquanto me via perdida nessas considerações, minha atenção foi desviada para a cena que ali se desenrolava.
O casal troca um beijo gostoso, ambos abraçando-se, naquele abraço roliço, onde as formas que compunham a silhueta de cada um, transmitia o passar do tempo, contando sobre as reservas que a vida propiciara...
Neste momento, escuto o “noivo" dizer ao ouvido da “noiva".
- Foi bom para você?
- Tem sido sim...e pretendo que continue assim...
De onde estava, senti meu coração enternecer-se ao
captar do que eles falavam...
A vida é a construção de uma história, alicerçada na perseverança, determinação, tolerância, boa vontade e . Amor! Sim, o amor, em sua verdadeira e mais profunda performance. O amor que transcende o sentido poético, a paixão dos sentidos e se consolida no profundo da alma.
Neste momento, meus olhos cruzaram-se com o olhar de meu amigo, e numa cumplicidade própria dos que já se conhecem há algum tempo, partilhamos a essência do momento...
Desejei, de coração, que os jovens ali presentes pudessem perceber o recado que a vida nos dava.
Sim, a juventude é algo belo, desejável, porém é passageiro, fugaz, que se deteriora com o tempo...o sentimento autêntico do verdadeiro amor é perene, intocável e eterno!
Lembrei-me de um outro “velho” amigo...que dizia:
Quem tem olhos... que veja! Quem tem ouvido... que ouça!
E ousei complementar em meu pensamento...
Quem tem coração...Que AME!

Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 01/04/2005
Código do texto: T9070
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
1286 textos (215170 leituras)
1 e-livros (148 leituras)
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Priscila de Loureiro Coelho