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O Amante

Eu, como a grande maioria das pessoas medíocres, sempre gostei de criticar tudo e a todos. São inúmeros os temas por mim abordados, onde soltei e solto toda a minha ira de reformador dos valores que regem a nossa sociedade. Sempre gostei de me colocar acima do bem e do mal, como se eu fosse melhor que os "outros", como se eu vivesse em outra dimensão, livre de pecados e enganos e estivesse aqui apenas para julgar.

Não faz muito tempo, movido por uma necessidade inusitada de ficar em paz comigo mesmo, declarei que sou racista, mesmo que meu racismo seja o "aceito" pela sociedade. Meu racismo é aquele dissimulado. Mas isso é o tema do outro texto.

Logo eu, que costumava criticar o racismo e a segregação sócio-racial sofrida pelos nordestinos no sudeste do Brasil. Porém, justamente para não fugir à minha posição de severo crítico que faz aquilo o que os "outros" não podem fazer, estou cometendo um outro grande pecado além do racismo dissimulado.

Estou sendo o "amante". Lembro-me bem da minha posição inabalável quanto a esse tema. Eu sempre afirmava que não é aceitável uma pessoa estar relacionada com alguém e trair à confiança do parceiro. Achava isso inconcebível. Digno apenas de pessoas sem caráter e respeito pelo próximo. Mas eis que a vida mais uma vez me ensina da melhor maneira. Fazendo sentir na pele o "mal" que eu sempre combati com tanto vigor.

Mas como posso resistir aqueles olhinhos puxados, aquele cabelo liso preto pouco abaixo dos ombros, aquele sorriso gentil. Aquele corpo quente, cheiroso e delgado, vestido pecaminosamente de sensualidade. Não posso deixar de querer estar ao seu lado.Mesmo sabendo que não sou o único homem que se deita em sua cama. Logo eu que sempre julguei, sentenciei e culpei todos os amantes, estou passando exatamente por isso agora. Mas como resistir ao seu corpo nu, à sua boca, a suas carícias, seus pedidos dengosos no meio da madrugada, sob a luz da vela que ilumina nossos pecados?

Tenho duas escolhas. (E eu agora sei o quanto as escolhas as vezes podem ser cruéis). Posso escolher ser o crítico. Posso ficar do lado dos "bons" e dos portadores da moral e dos bons costumes. Ou posso-me entregar aos prazeres que aquela morena "infiel" me dá. Posso-me render aos encantos da sua malícia inocente que me conquistou, ou posso ser o primeiro a "atirar bosta na Geni".

Por ora, eu escolhi a ser o pecador, escolhi a minha bela morena; oi será que foi ela quem escolheu? Não sei bem ao certo. Só sei que gosto dela. Gosto de estar com ela, de ficar com ela, da sua companhia, da amizade, da sua presença e da sua ausência. Gosto de poder estar aqui falando nela, e me lembrando dos bons momentos que passamos juntos.

Mas eu me pergunto onde quero chegar com isso? O que posso esperar dessa relação e da minha posição de amante. Existe saída para isso? Existe cura? E quando nossa relação acabar, o que vai ser de mim?

Um ex-amante? Um ex-pecador? Estarei mais uma vez livre da minha culpa e em paz com a minha implacável consciência que me cobra isso todos os dias? E ela? O que será da minha bela e amável morena? Será ela uma moça certa? Uma mulher fiel que um dia cometeu um deslize? Ou terá ela que levar estampada em seu peito a letra "A" para sempre?

Mais uma vez eu caio em contradição. Mais uma vez eu me torno alvo da minha própria crítica. E agora? Se fosse futebol eu simplesmente faria uma "virada de mesa". Mas agora é tarde, estou condenado a jogar na segunda divisão. E o que é pior, sem chances de voltar à divisão elite. De todos os males o menos pior. Azar no "jogo da consciência", sorte no amor. Ao menos por ora.
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 28/12/2005
Reeditado em 10/03/2013
Código do texto: T91172
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
219 textos (69832 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 04:21)
Ullisses Salles