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Triste ano novo

Eu odeio o inverno
 
Esse é o efeito que o inverno tem sobre mim. Basta comparar essa foto com a foto precedente, (a foto estará no meu fotolog quando ele  voltar a funcionar). Em apenas alguns meses de distância, me torno uma outra pessoa. A ausência de sol e de calor, me deixam assim. Feio, pálido, com uma aparência cansada. Quase uma resignação nesses dias frios, cinza onde o sol não brilha e onde não há luz.
 
Acho engraçado, quase ingênuo, quando minhas amigas do Brasil dizem que detestam o calor e amam o frio. Fácil dizer isso quando estão todas lindas, bronzeadas, com suas marquinhas de biquine, seus corpos dourados do sol. É chique sentir frio, amar o frio, ir para Bariloche tres dias ou subir a serra e tomar chocolate quente. E logo em seguida voltar para a cidade e ir para barzinhos ao ar livre, clubes, praias, rafting, cavalgadas e tantas outras coisas que não posso fazer durante 8 meses do ano.
 
Sim, eu odeio o frio e a neve e sobre tudo, a ausência de sol. Odeio os dias escuros onde temos que ligar a luz de casa as 3 da tarde, pois não há luz natural. Passar semanas a fio sem o sol, e sem as cores das coisas é um castigo para qualquer pessoa. Isso talvez explique um pouco a frieza de espírito dos europeus, o alto nível de suicídios, e a sensação de que a felicidade está em outro lugar.
 
Odeio o inverno e tudo que ele traz. A pele resseca por causa do frio, o couro cabeludo se esfarela por causa d'água quente e cheia de calcário. O nariz escorre, os olhos lacrimejam, a alma se encolhe e o coração hiberna.
 
É como se aqui vivessemos apenas para trabalhar e ganhar dinheiro. Para durante nosso longo ano, ir passar alguns poucos dias de alegria e de vida em alguma terra distante.
 
Para mim, o inverno é sim um calvário. Não pelo frio em si, mas sim pela impossibilidade de fazer tudo aquilo que eu só faço nos tres meses de calor. Nadar, andar de bicicleta, usar pouca roupa, ir ao mar, tomar sol, ficar brozeado e bonito, com uma aparência saudável e não essa coisa pálida e sem vida que sou agora.
 
Não, não é chique passar o ano novo em Paris diante da Torre Eiffel onde uma multidão não se encontra, e onde pessoas fazem a contagem regressiva cada uma por si. Não, não é chique passar o ano novo em St.Moritz e Davos dentro de discotecas lotadas onde não há contagem regressiva, ou lá fora sob um frio tão grande que o próprio tempo congela e o ano não vira. Não, não é chique passar o ano em Milão na praça diante do Duomo onde centenas de estrangeiros não integrados à sociedade esperam apenas o momento de roubar sua bolsa. Não, não chique passar o ano em Londres na praça em meio a milhares de desconhcidos desconfiados que você seja um homem bomba e depois da meia noite ir andando cabisbaixo para casa. Eu já passei por tudo isso.
 
Para vocês que estão no Brasil, se preparando com fervor para a virada do ano, comprando roupa nova, segundo a cor do ano, e vão passar a festa no clube, na praia, no calor, se empanturrando de pernil, arroz, saldas, farofa e sucos naturais. Ouvindo música e pulando ondas e vendo o sol nascer no mar em Trancoso, um beijo grande e frio desde a distante Suíça.
 
Feliz ano novo... pra você, não pra mim.
 
Ullisses Salles 29.12.2005

Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 29/12/2005
Reeditado em 29/12/2005
Código do texto: T91591
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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
219 textos (69791 leituras)
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Ullisses Salles