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Diálogo com Deus

Diálogo com Deus
Cansado de ser criticado pelos meus amigos e conhecidos por não crer em Deus e não conversar com ele nunca, eu resolvi chama-lo par um bate-papo. O todo-poderoso me ouviu, apareceu e respondeu às seguintes perguntas.

Ullisses = U - Deus = D

U - Deus, você está aí?
D - Sim Ullisses, o que você deseja?
U - Preciso conversar com você.
D - Mas você não acredita em mim Ullisses.
U - Verdade, não acredito, mas a grande maioria das pessoas acreditam piamente em você.
D - Pois é Ullisses, isso me preocupa muito.
U - Preocupa? Porquê?
D - Preocupa porquê a humanidade acredita em mim cegamente. Muitos afirmam que a fé é cega e não deve ser discutida.
U - Verdade, eu já ouvi muito isso. As pessoas me dizem que religião não se discute. Você concorda com isso?

D - Claro que não. O ser humano é dotado de um cérebro muito poderoso, o que o diferencia dos outros animais. Se um indivíduo acredita em mim só porquê algumas pessoas o dizem que tem que acreditar, ele se torna um animal treinado que faz aquilo que lhe é ensinado, como um cão obediente.

U - Então você acha que muitas pessoas acreditam em você só porquê crescem dentro de um contexto religioso que os "obriga" a acreditar em você?

D - Sim. Isso é muito fácil de ser comprovado. Veja bem. O “Hattori”, que nasceu no Japão é Budista. Já o “Kalef” que nasceu em Riad, é Muçulmano. O “Da Silva” que nasceu no Rio de Janeiro, acredita em Jesus Cristo. A “Janaína” que nasceu no Xingú, acredita em algum dues da floresta. E onde você vá Ullisses, verá que existem vários Deuses diferentes em várias religiões, todas elas reflexo sociocultural que é praticamente imposto pelo ambiente na qual o indivíduo se desenvolve.

U - O que você quer dizer com isso?

D - Que a religião não é nada mais que um fator sociocultural muitas vezes imposto ao cidadão.

U - Mas isso as pessoas já sabem; ou não?

D - Não, elas não sabem. Veja-se os exemplos que temos todos os dias. As pessoas que seguem uma determinada religião, não toleram as outras e acreditam de fato que a sua doutrina seja a correta. Se isso fosse verdade, os Xintoístas estariam certos e os Católicos errados? E os Animistas são menos corretos que os Muçulmanos? Se apenas uma religião está correta, o que acontece com as outras? São um caso de hipnose em conjunto? Ou pura perda de tempo?

U - Mas e se todas as religiões estiverem corretas?

D - Não é possível, pois os personagens das diferentes religiões apareceram na história da humanidade com centenas e até milhares de anos de diferença. E algumas religiões sustentam mais de um Deus.

U - Mudando um pouco de assunto. O que você acha das pessoas que agradecem por tudo o que tem a você?

D - Se eu fosse realmente responsável pelas coisas que as pessoas conquistam, elas seriam desmerecedoras das suas conquistas.

U - Como assim? Pode explicar melhor?

D - Claro. O aluno que passa no vestibular, ele costuma dizer; "graças a Deus". Mas isso é uma grande bobagem, pois o aluno só passou graças ao seu mérito, ao seu estudo ou por pura sorte. Eu nem gosto de matemática, muito menos de história do Brasil que é uma civilização
muito jovem. Porquê eu deveria ajudar um aluno que estudou História do Brasil que tem 500 anos, e deixar de ajudar o aluno chinês que pertence à uma civilização que tem 5000 anos?

U - Tem algum outro exemplo?

D - O pai de família que recebeu uma promoção no trabalho. Porquê ele deveria ser grato a Deus? Ele é quem trabalha e obtém os bons resultados que lhe valem a promoção, eu nem entendo de banco de dados, acho todo isso muito virtual. Eu prefiro algo mais espiritual; se é que você me entende.

U - Se você não é responsável pelas coisas boas, você também não tem culpa das ruins não é mesmo?

D - Exatamente. Quando acontece um acidente por exemplo, e há sobreviventes, as pessoas costumam dizer "graças a Deus". Veja bem, eu seria muito seletivo e sádico se escolhesse apenas alguns para sobreviverem. E eu não sou sádico nem tampouco seletivo.

U - Mas e essa história de "ele se foi porquê chegou a sua hora".

D - Isso é causado pela incapacidade do homem de lidar com a morte e por isso atribui a mim o fim da vida de um indivíduo. Como também o faz com o nascimento. Incapaz de entender a geração da vida, o homem diz que sou eu que "dou" a vida a todos vocês.

U - Mudando um pouco de assunto. O que você acha das regras que os homens têm em suas religiões e que atribuem a você?

D - Essas regras são absurdas, não refletem a minha vontade. Imagine você se o criador de algo tão grandioso como a vida, se preocuparia com coisas tão mesquinhas como ter que usar panos na cabeça, não poder comer esse ou aquele alimento num determinado dia da semana, não poder trabalhar num outro dia, não poder ter relações sexuais antes do casamento ou qualquer outro absurdo do gênero. O homem usa a religião para controlar a mente e a vontade de seus iguais, e faz isso em meu nome. Isso me ofende e me deixa muito desgostoso com a humanidade. Eu não sou responsável pelos disparates dos homens.


U - Eu não acredito em você, é verdade que por causa disso eu não terei lugar no reino dos céus quando morrer?

D - Claro que não. Isso é mais uma maneira que os homens encontraram para impor a religião e a fé nas pessoas. Se eu sou Deus e criei tudo o que existe. Todos vocês são minha criação por isso tem lugar ao meu lado no reino dos céus sim. Não é porquê uma pessoa não aceita cegamente as doutrinas que forçam as religiões do mundo, que essa pessoa não tem direito de descansar ao meu lado.

Eu prefiro um ateu que estuda, se informa, e se questiona o porquê das religiões, o porquê da vida e da morte que um crédulo cego. Que acredita sem jamais pensar na mera possibilidade disso tudo ter sido uma criação da psique humana. Se eu fosse assim, eu seria um Deus vingativo. E vingança não é um sentimento de Deus, e sim do homem, que tenta se vingar daqueles que não acreditam em mim, espalhando essa mentira absurda.

Cada indivíduo é livre de escolher se acredita ou não em mim. Pois a fé em Deus tem que ser algo que vem de dentro e não de fora através de imposições da família, da sociedade e da cultura local.

U - Mas você existe ou não?

D - Não, eu não existo. Eu sou a necessidade psicológica do ser humano comum. O medo da morte. A incapacidade de compreender a vida, o macro e o microcosmo. Daí, para "justificar" tudo isso o homem me criou. O homem inventou Deus e atribuiu a ele tudo o que ele não é. Eterno, onipresente, onipotente e bom. O homem é mesquinho, corrupto, fraco e mortal. Por isso me criou, para ao menos através da minha imagem chegar à eternidade.

U - Mas e agora? Como faremos para dizer a mais de 6 bilhões de pessoas?

D - Não diremos, pois elas não estão preparadas para isso. Não estão preparadas para saber que aquilo em que elas acreditam durante toda uma vida, não existe. Seria um choque muito forte para todas elas.

Isso poderia jogar o mundo numa era de caos e de desespero que seria usada por aproveitadores para obter poder e dinheiro, como se faz hoje com a Religião Muitas pessoas se encontrariam realmente sós, sem nem ao menos a fé. Isso seria a materialização da palavra desespero; sem esperança. E um homem sem esperança, não alcança nada. Então Ullisses, deixe a humanidade ter ao menos a esperança de que depois dessa existência haverá uma recompensa.
Ullisses Salles
Enviado por Ullisses Salles em 29/12/2005
Reeditado em 09/04/2012
Código do texto: T91721

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Sobre o autor
Ullisses Salles
Suíça, 40 anos
219 textos (69786 leituras)
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Ullisses Salles