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T R E N A

 



A trena, também conhecida como fita métrica, pode ser construída com aço, tecido ou outro material. Serve para medições as mais diversas, utilizada por profissionais e amadores de várias áreas. Beira o óbvio escrever detalhes técnicos sobre uma trena. E não o farei. A trena referida neste artigo é real, no sentido físico. Todavia, é na representação filosófica que passo a descrever a experiência vivida dias desses. Claro está, ou deve ficar, que não tenho a pretensão de bulir a Ciência Filosofia, que, por sinal, está inserida em todas as outras Ciências. Mas, o fato a seguir registrado balançou os pensares dos presentes.
Verão, praia, amigos, churrasco ao entardecer, música, sobremesa e conversa regada jogada fora. Fora até o instante em que apareceu a trena. A partir daí, o que se falou e ouviu foi direcionado para o interior d’alma. As semi-etílicas filosofias da noite apresentam surpresas. Quando um dos circunstantes apresentou a trena e a abriu sobre a mesa, até o centímetro correspondente a idade do mais velho da roda, o caldo começou a engrossar. Perguntou com qual idade morreu o pai de cada um dos presentes. Oitenta e nove foi o que durou mais. Abriu a trena até aquela metragem. Como já sabia da experiência, foi o primeiro a “ler” a sua vida. Com seis centímetros (anos) entrou para o curso primário (na época); com doze para o ginásio; com dezesseis a primeira namorada; com dezoito o serviço militar; com vinte e três o casamento. Os demais não se contiveram e, acercando-se da trena com o dedo esticado, apontavam as suas próprias experiências e vivências. Muitos fatos em comum foram lembrados. Uns alegres, outros tristes; tal qual é a vida. Discussão sobre futebol surgiu; análises políticas; fatos relevantes mundiais e mais uma série de eventos foram recordados, uns, e confidenciados, outros. Tudo acaba! De repente, não mais do que de repente, alguém olhou fixamente para aquela marcação na trena. Foi o exato oxímoro de um retumbante silêncio. Para os mais coroas faltava (ou falta) um pedacinho de trena para ser vivido, caso alcançasse a idade do pai que morreu por último.
Passados alguns dias daquele evento, me ponho a pensar na trena. Seria ela uma grande conselheira? O quê faremos com os centímetros que nos restam? Pronto, o leque abriu. Que cada leitor pense a respeito ou, então, nunca abra uma trena sobre a mesa, pois exatas são as medidas passadas. As futuras...
 
Cláudio Pinto de Sá
Enviado por Cláudio Pinto de Sá em 26/03/2008
Código do texto: T917389
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Sobre o autor
Cláudio Pinto de Sá
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 67 anos
163 textos (21693 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/10/14 01:46)
Cláudio Pinto de Sá



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